09 de julho de 2026
Articulistas

Quem crê, duvida


| Tempo de leitura: 4 min

O Papa Bento XVI deixou o mundo perplexo ao perguntar em Auschwitz, na semana passada: “Por que Deus se calou diante do Holocausto?”. Mais de quatro milhões de judeus foram imolados pelas tropas alemãs de Hitler em nome da intolerância, do preconceito ou da maldade, simplesmente. E onde estava Deus? Sua Santidade, ele próprio alemão de nascimento, visitou o campo de extermínio e ali rezou pelas almas de milhões massacrados sem piedade após ingentes sofrimentos. Descartes diria que Deus, provavelmente, estaria muito ocupado na primeira metade dos anos 40 do século passado, quando Hitler se transformou no grande monstro apocalíptico. Em sua obra, o filósofo imaginava haver um demônio malévolo, supremamente poderoso e astuto, que dedica suas energias a enganar pobres pensadores pondo imagens falsas diante deles. O método da dúvida para Descartes seria, portanto, a melhor maneira de se chegar ao conhecimento, além de demonstrar a humildade e a fé “de quem chega a duvidar até da própria dúvida”.

Bento XVI só fez por demonstrar, com a sua pergunta, a ansiedade de qualquer cidadão diante das perplexidades do mundo. Quando Pio IX (1846-78) tornou-se o primeiro papa “infalível”, um título que decidiu dar a si próprio, queria dizer que nenhuma dúvida jamais poderia assaltá-lo por ser o único e legítimo representante de Deus na terra. Ele era um inimigo de sociedades bíblicas e da liberdade de imprensa. Com sua “infalibilidade”, quis justificar as prisões lotadas com mais de 800 intelectuais que ousaram ter dúvidas sobre a sua condução dos negócios da Igreja. Os demais papas que o sucederam, até João XXIII (1958-63), também utilizaram o título de “infalível”. Talvez a crença nessa condição tenha levado Pio XII (1939-58) a manter-se estranhamente quieto a respeito do Holocausto. Este pontífice foi muito criticado por não fazer o suficiente para ajudar os judeus. Sua explicação foi que uma condenação tornaria as coisas piores, mas ele poderia ter feito alguma coisa a respeito. Pio XII era um homem que Hitler temia, dado que a maioria dos soldados alemães eram católicos. Seu antecessor Pio XI, em 1932, ordenara os católicos alemães a parar com suas hostilidades a Hitler e chocou os fiéis do mundo inteiro ao apoiar a invasão da Abissínia por Mussolini. Ambos foram colaboradores indiretos da eclosão de uma hecatombe universal e de todas as trágicas conseqüências conhecidas. O outrora “cardeal de ferro” Ratzinger, hoje Bento XVI, mostra suas incertezas e maleabilidade diante das misérias do mundo. Tem humildade suficiente para perguntar, sem se arvorar em gestor do Divino num plano só um pouco abaixo, como se faziam crer outros papas. Nietzsche dizia que idéias falsas, como a do amor de Deus por suas criaturas, nos dão conforto, ao passo que os fatos muitas vezes não deixam de ser penosos mesmo que se diga “amém”. Quando alguém tem êxito na vida, ao contrário, não hesita em atribuir os méritos a si próprio. E onde fica Deus nisso? Quando Nietzsche dizia que “Deus está morto”, na verdade referia-se à necessidade de irmos à luta e não ficarmos nos lamentando ou clamando para que Ele nos acuda. A esse indivíduo capaz de encarar o caos a sua volta e impor a sua força de vontade é que ele chamava de “super-homem” (Übermensch). Já morto o filósofo, Hitler se apoderou dessa idéia para atribuir à raça ariana o mito do super-homem com os dons do impulso criativo pelo exercício do poder. O Übermensch, no entanto, era um tipo humano, não um tipo racial. Nietzsche não era anti-semita. Os judeus souberam renascer das cinzas, preservaram a identidade cultural e ainda lutam para fundar uma pátria com território. Os palestinos, agora, são as vítimas. Massacres ocorrem diariamente na chamada Terra Santa. E que Deus tem a ver com isso? Entendo a pergunta de Bento XVI ao visitar um dos palcos do Holocausto. Indagação profundamente humana. Tenho medo daqueles que têm certezas poderosas, dos que não vacilam, dos que se dizem justos, dos que não erram, dos que não têm dúvidas. Uma fé de certezas não é fé. Nietzsche, um grande sábio, incompreendido pelos seus contemporâneos, também se perguntou nos três capítulos de “Ecce homo”, concluído em 1888 e que levavam os títulos “Por que sou tão inteligente”, “Por que sou tão sábio” e “Por que escrevo livros tão bons”. Quem sabe, no exercício pleno do direito de duvidar tenha se esquecido de colocar ponto de interrogação nesses títulos.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC