Ela é uma dessas raras pessoas que descobrem sua missão na vida ainda na tenra idade e a cumpre durante toda sua existência. No caso de Marília Guedes de Azevedo Pallotta: educar. Vinda de uma família de professores ( tia-avó, tios, pai), ela faz parte da terceira geração de educadores da família Guedes de Azevedo. A saga da família na arte de educar não termina com Marília. Seus três filhos são a quarta geração de educadores.
Aos 76 anos, ela une a vida pessoal com o amor pela educação. Inclusive, geograficamente. É só abrir um portão lateral para sair da escola Guedes de Azevedo e entrar na residência de Marília. Um pequeno e belo jardim é a primeira imagem que surge. Segunda paixão da educadora, as plantas e os cuidados que exigem ocupam um bom lugar na sua vida.
Suas relíquias são a escola, as azaléias e rendas portuguesas plantadas em seu jardim, um bem-te-vi que está sempre em sua casa. É que podemos encontrar Marília, quando não está na escola, sempre no fim do dia e ao cair da noite.
A seguir a entrevista que a educadora Marília Pallotta concedeu ao Jornal da Cidade.
Jornal da Cidade - Como começa a família Guedes de Azevedo?
Marília Guedes de Azevedo Pallotta - Luiz José Guedes saiu de Minas Gerais e foi para Bananal (SP), no Vale do Paraíba. Isto no século 19. Ele foi trabalhar para o fazendeiro Luiz Ribeiro de Souza e casou-se com a filha dele, Anna Francisca Ribeiro de Souza. Tempos depois, Guedes resolveu tentar a vida em Ribeirão Preto, onde comprou algumas terras. Lá conheceu José Venâncio de Azevedo Leal, dono da fazenda Liberdade, uma das melhores propriedade agrícolas da região. Os dois não tornaram-se amigos, mas seus filhos, Ana de Castro Guedes e Urias Venâncio de Azevedo Leal, meus avós, apaixonaram-se. O casamento dos dois deu origem à família Guedes de Azevedo.
JC - O casal continuou em Ribeirão Preto? Quantos filhos tiveram?
Pallotta - Ana e Urias se estabeleceram na fazenda Liberdade. Na época a medicina era muito precária e dos 12 filhos do casal, apenas seis vingaram: José, Waldomiro, Antônio (meu pai), Durval, Everaldo e Maria. Logo após o parto de Maria, Ana adoeceu e faleceu. Seus filhos ficaram sob os cuidados de suas irmãs Francisca e Eliza. Quando Urias faleceu, a fazenda Liberdade foi vendida, pois era muito grande o número de herdeiros.
JC - Como as irmãs Francisca e Elisa criaram os sobrinhos?
Pallotta - Elas tinham um temperamento guerreiro e contaram com a ajuda das famílias Guedes e Azevedo e de amigos, entre eles o Altino Arantes. Investiram na educação dos sobrinhos. Waldomiro e Durval foram estudar no Seminário de Lavrinhas. Para Everaldo e Antônio conseguiram bolsas de estudo no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em São Paulo. José e Maria ficaram com as tias.
JC - Francisca inicia a saga da família Guedes de Azevedo na área da educação, certo?
Pallotta - Ela muda-se para São Paulo e começa a dar aula na escola mantida pela Companhia Nacional de Tecidos de Juta. A vida da família melhora. José também começa a lecionar, mas as coisas voltam a piorar no final da 1.ª Guerra Mundial. A família toda contraiu a gripe espanhola, apenas Everaldo não. Minha tia-avó, Francisca, morre.
JC - Elisa ficou responsável por todos? Foi ela que os guiou para o magistério?
Pallotta - Sim. Ela percebeu que todos os sobrinhos tinham vocação para o magistério. Com o incentivo da tia Elisa todos tornaram-se professores, inclusive a Maria que tinha se formado em farmácia. José abriu uma escola em Orlândia, Durval e Waldomiro abriram uma escola em Lins. Antônio, meu pai, abriu uma escola em Bauru em 1925 e chamou o irmão Everaldo para ajudá-lo.
JC - Começava então a história da escola Guedes de Azevedo?
Pallotta - Sim. Abriram a escola Guedes de Azevedo que funcionou, primeiro, durante cinco anos, na esquina das ruas Batista de Carvalho com a Araújo Leite. O primeiro curso instalado foi o de Guarda Livros (Contabilidade), depois incorporou a escola Normal e mais tarde criou o internato. O internato funcionava numa chácara comprada pela família e dela tirava os produtos para os alunos. Isto permitiu uma mensalidade razoável.
JC - A família dedicava-se integralmente à escola?
Pallotta - O dia todo. E faziam tudo. Se algum funcionário faltava eles faziam a limpeza, iam para a cozinha. Na década de 40 já estavam criados os cursos de primário, ginasial, básico, contabilidade, colegial e escola normal. Era também no Guedes de Azevedo que estava instalada a escola de Instrução Militar número 276.
JC - Além da intensa atuação na formação de alunos, a família Guedes de Azevedo também tinha participação nos acontecimentos da cidade?
Pallotta - Nos acontecimentos cívicos, políticos, artísticos, esportivos.
JC - Como começa a sua história na educação? A senhora sempre quis ser professora?
Pallotta - Faço parte da terceira geração de professores da família Guedes de Azevedo, desde menina já pensava em ser professora. Em 1945 eu terminei o ginásio. Em 1948, o Normal. Daí fui estudar na USP, em São Paulo. Fiz curso de letras anglo-germânicas. Lecionei até 1957, depois casei, me mudei para São Paulo, tive três filhos, o Fábio, o Roberto e a Luísa e só voltei a lecionar em 1967.
JC - Não parou mais?
Pallotta - Aos 76 anos, não me imagino sem a escola. Em 1987 construí minha própria escola, que é esta e é onde meus filhos também atuam. Eles são a quarta geração de educadores da família Guedes de Azevedo.
JC - Qual a atuação deles na escola?
Pallotta - A Luísa é a diretora financeira da escola, o Roberto é o coordenador pedagógico e responsável pela educação ambiental, a minha nora Silvia, esposa do Fábio, é coordenadora da quinta à oitava séries. O Fábio atua com o colegial. Todos são pedagogos.
JC - Andando pela escola, percebemos que a senhora conversa com os alunos e sempre faz uma referência a algum familiar deles. A senhora conhece pais e parentes de todos? Muitos já foram seus alunos ou colegas?
Pallotta - Conheço familiares da maioria. Vários foram meus alunos e muitos outros, colegas de escola.
JC - O ambiente é bem familiar na sua escola. A senhora acredita que esta deve ser a base da educação escolar? Quase uma continuidade da casa?
Pallotta - Com certeza. O ambiente acolhedor, como uma grande família é muito importante para o desenvolvimento dos alunos e de seus valores.
JC - Em outro momento da entrevista a senhora afirma que, na época do internato da escola Guedes de Azevedo, seus tios-avós tinham a preocupação de oferecer uma mensalidade acessível aos alunos. A senhora também acredita e emprega este princípio, de colocar a educação em primeiro lugar, à frente do aspecto comercial?
Pallotta - Minhas salas de aula têm no máximo 25 alunos. Muitas têm apenas 20. Em muitas escolas têm 40 alunos em sala de aula. Se eu fizer isso vou ganhar dinheiro, mas vou perder em qualidade da educação. Mas também não vou dizer para você que não me preocupo com a parte financeira. Preocupo-me, sim, por que senão não tem como manter uma boa escola, mas com certeza o aspecto comercial não vem em primeiro lugar.
JC - Seus tios-avós acompanhavam e cuidavam de cada aspecto da escola. A senhora também é assim, não é? Herdou esta postura dos seus antecedentes.
Pallotta - Realmente. Eu cuido de tudo que diz respeito à escola. Delego funções, cada um tem sua responsabilidade, mas estou presente em tempo integral. Confiro sempre como está sendo o atendimento às crianças, como elas estão se comportando, se está tudo limpo, desde os banheiros até o pátio. Há um tempo atrás ficamos sem o funcionário que abria a escola, varria a calçada. Eu assumi.
JC - Como é a rotina da senhora?
Pallotta - Eu me levanto às 5 da manhã. Gosto de ler na varanda. Leio a Folha de São Paulo, a Veja e o Jornal da Cidade. Às 7 horas já estou na escola.
JC - Um detalhe que representa seu amor pela escola é que sua casa fica no mesmo terreno.
Pallotta - Eu já tinha essa casa. Vim para cá quando a antiga Guedes de Azevedo foi vendida e com minha parte construí a escola junto com minha casa.
JC - A senhora levanta às 5h da manhã e às 7h está na escola. Como é o resto do dia?
Pallotta - Fico aqui na escola até meio-dia. Às 13h30 volto e fico até às 18 horas.
JC - Grande parte da sua energia é empregada na escola. Sobra algum tempo para outras atividades que não tenham nada a ver com alunos, aulas, professores, escola? O que a Marília gosta de fazer?
Pallotta - Eu gosto muito de cuidar das minhas plantas, adoro caminhar e também de sair para passear.
JC - A senhora caminha bastante? Tem horários determinados para esta atividade?
Pallotta - Antigamente, sim. Hoje, não mais. O caminhar está na minha rotina. Faço tudo, tudo mesmo, a pé. Vou ao supermercado, ao cabeleireiro, em todos os lugares, sempre a pé. Tem dia que chego a andar em média três a quatro quilômetros. Gosto muito de caminhar.
JC - E os passeios?
Pallotta - Somos uma turma de cinco ou seis amigas de infância. Uma vez por semana ou a cada 15 dias nós saímos para jantar, para assistir um concerto, participar de eventos culturais.
JC - E as plantas? Onde entram em sua vida? Fale um pouco sobre seu amor pela natureza.
Pallotta - Tenho um jardim, que chamo de meu jardim secreto. Todos os dias fico das 18 horas às 20 horas com minhas plantas. Tem o bem-te-vi que é meu freguês, está sempre aqui. Esta renda portuguesa eu tenho há 40 anos. A azaléia é minha paixão.
JC - A senhora diria que seu amor pela natureza se estende para a educação de seus alunos?
Pallotta - Sim. Com certeza. A educação ambiental faz parte de nosso currículo. Temos uma parceria com o Instituto Ambiental Vidagua, há seis anos. Neste trabalho buscamos desenvolver a consciência ecológica dos alunos, para que eles percebam que fazem parte do meio ambiente. Além das diversas atividades de pesquisa, apresentação de vídeos, brincadeiras com enfoque ecológico, também fazemos excursões. Já descemos os rios Batalha, Tietê, Jacaré-Pepira.
JC - A senhora fala com o mesmo amor, a mesma intensidade das plantas e dos alunos. Qual a principal semelhança entre eles?
Pallotta - As plantas você tem que colocar em lugares que elas gostam. Você tem que ter amor por elas, senão elas morrem. Com as crianças e adolescentes também é assim. Você tem que amar. Eles sentem se você gosta deles.
JC - A senhora se considera realizada?
Pallotta - Eu sou muito realizada. Cheguei ao final de minha vida como quem ganha um prêmio, muito feliz.