Bocaina – A prova de fé e devoção a São João Batista, padroeiro da cidade de Bocaina (69 quilômetros de Bauru), é suportar caminhar sobre brasas da fogueira da festa. O ritual acontece à meia-noite do dia 23 para o dia 24 de junho, anunciado pelo badalar dos sinos. Fiéis atravessam as brasas da fogueira andando descalços.
Nos últimos anos a tradição da passagem da fogueira ganhou status de espetáculo. No ano passado a cidade recebeu mais de 7.000 pessoas e, como o dia 23 de junho deste ano é numa sexta-feira, a expectativa é dobrar a população, hoje estimada em 10.813 habitantes.
A chefe de desenvolvimento cultural de Bocaina, Isabel Cristina Parisotto, comenta que, diferente de outras festas da região, que atraem público com artistas famosos, Bocaina monta uma singela fogueira e junta milhares de espectadores. “É engraçado porque a gente vê todos os anos e todo ano quer rever”, ressalta.
Parisotto explica que o fato de algumas pessoas não se queimarem enquanto outras tostam os pés é motivo de discussão. Ela comenta haver gente que se arrisca e acaba indo para o pronto-socorro da Santa Casa.
Os relatos de quem acompanha o ritual é de que existe todo um preparo espiritual, com preces, que garantem proteção na caminhada sobre os restos incandescentes da fogueira.
A passagem da fogueira também promove fama para quem sai da brasa sem ferimentos. Atualmente entre as celebridades destacam-se Wanderlei Pegoraro, o Espanta Boiada; Américo Bonfin da Silva da Cruz, o Pinha; e Pedro Aparecido Ferraresi, o Polaco. Os intrépidos que se aventuram têm de enfrentar uma passarela de cinco metros de comprimento por cerca de três de largura.
Os pés afundam na brasa deixada por uma fogueira gigante em frente à Igreja Matriz de São João Batista. Nas últimas edições, Parisotto deu pela falta do senhor Garcia, fiel que costumava passear pelo tapete quente todos os anos, mas que parou. No ano passado, cinco pessoas passaram, número que representa a média registrada nos últimos anos.
Alice Maruschi Parisotto, 73 anos, é uma das bocainenses que tiveram a sensação mágica de circular sobre as brasas quando era adolescente e na juventude. Ela e as amigas encorajavam umas às outras para o desafio, que ocorria na fazenda. “Caminhava com minha fé e com o São João no coração. Mantenho até hoje a vontade. Antigamente, ninguém se queimava”, garante.
O desafio, descreve Alice, era maior, pois não bastava passar. A caminhada era de ida e volta. Ela explica que um senhor, do qual não se recorda o nome, seguia na frente, sendo acompanhado pelas outras pessoas em fila indiana. A passagem do grupo desenhava no tapete de brasa uma cruz.
Alice avalia que o atual caráter de espetáculo atribuído à passagem da fogueira vem desestimulando as pessoas ao ato de fé. Entre seus oito filhos não há quem tenha se arriscado.