Numa esquina pouco iluminada, com música de forró ao fundo, lá está ela. Encostada num muro, junto de seu grupo, ela espera pelo cliente. Não tem carteira assinada, mas cumpre seu horário. Entra às 19 horas e sai por volta das três da madrugada. Tem cabelo chanel, toma hormônio feminino, tem próteses de silicone, segura uma bolsa preta e não usa sutiã. Bianca Close, 24 anos, metade de sua vida resumida a trabalhar no período noturno.
Não usa drogas e não bebe. Estudou até a quarta série do ensino fundamental e pretende voltar a estudar. Há um mês, faz curso de cabeleireira para tentar mudar de profissão.
Bianca é travesti. Desde os doze anos exerce esse ofício. Cobra R$ 30,00 o programa e atende em torno de cinco clientes por noite. Não escolhe os parceiros, pois o dinheiro fala mais alto. Sempre se previne de doenças utilizando camisinha para as relações sexuais. “Até para colocar a mão peço para o cliente usar camisinha. Saúde não tem dinheiro que pague”.
Quando indagada porque está nessa profissão, responde: “continuo nessa vida porque é difícil encontrar emprego quando se é travesti”. Com o pai, não conversa até hoje. Ele se separou de sua esposa quando Bianca tinha nove anos, por não aceitar a idéia de ter um filho homossexual. A mãe tem câncer e é auxiliada por Bianca no tratamento. A profissional do sexo sofre com variados tipos de violência, até mesmo daqueles que deveriam protegê-la. “Antigamente policial chegava batendo, nos espancando. Hoje isso diminuiu”. Ele também relatou que adolescentes e homens de mais idade arremessam pedras, jogam bombas e descarregam extintores em cima dos travestis. “Teve uma vez que um grupo desceu dando tiros” – lembra Bianca.
Ela também ficou presa por três anos. Alegou que um policial forjou que ela havia roubado um cliente. “Sofremos vários tipos de preconceito. Já apanhei de homens e constantemente somos xingados”. E, naquela noite, após a entrevista concedida, o travesti voltou ao seu ofício. A pergunta que fica: como ressocializar essa pessoa e lhe garantir condições de viver com dignidade? Há maneiras de inseri-la na sociedade de uma forma que não seja marginal?
Juliano Schiavo Sussi - estudante de Jornalismo