Em tempos de tanto desencanto com a política partidária, um país onde absolutamente todos os habitantes têm direito à voz, onde uma simples reclamação acerca do desempenho de um político pode derrubá-lo do cargo seduz qualquer um. Imagine ainda se neste país não houver pobres nem oprimidos, se qualquer um que quiser pode ser advogado, juiz, presidente, imperador, professor, jornalista, designer, já que as oportunidades são iguais para todos. Pois bem, este país existe e não é único. São mais de 400 em todo o mundo. Todos esses países existem. Virtualmente, mas existem.
Tratam-se de micronações criadas na Internet e que simulam nações reais, com território, bandeira, hino, constituição, presidente ou monarca, dependendo do regime de governo, conjunto de leis, vida cultural, social, advogados, professores, jornalistas, padres, designers e tudo que se possa imaginar.
O micronacionalismo transformou-se num hobby que atrai cada vez mais pessoas. Integrantes de micronações fazem questão de ressaltar que não se trata de um jogo, de RPG, de um mero passatempo ou divertimento. O empresário carioca do ramo imobiliário, formado em direito Cláudio de Castro, criador de uma das micronações de destaque no Brasil, a Sacro Império de Reunião, afirma que o micronacionalismo é antes de tudo um treino para a vida.
“Em Reunião, por exemplo, lidamos com os egos, anseios e vontades de quase 900 pessoas. Isso ensina muito e é uma grande ferramenta de engrandecimento pessoal, justamente por serem pessoas tão diferentes entre si”, afirma. “No micronacionalismo você fica conhecendo o melhor e o pior das pessoas. Forma-se amizades e inimizades. Há casos de pessoas que se casaram na vida real”.
Segundo Castro, o grande diferencial entre as nações reais e as nações virtuais é, justamente, a importância do indivíduo. “Numa macronação, um indivíduo não é ‘nada’. Na micronação, ele, sozinho, é uma facção”, explica. “O indivíduo é uma pessoa pública importante, parte da elite, pois no micronacionalismo todos são elite”.
O direito à voz, a emitir sua opinião e interferir diretamente nos rumos políticos do micropaís é o que mais atrai no micronacionalismo. “Isto é possível porque se trata de um país extremamente diminuto”, afirma Castro. Algumas micronações têm 40, 50, 90 habitantes.
Castro acredita que o micronacionalismo, enquanto treino para a vida real, ajuda adolescentes a encontrarem sua vocação. “Temos exemplos de cidadãos que chegaram a Reunião, com 13, 14 anos, sem idéia do que seriam na vida ‘real’ e após serem jornalistas, advogados, políticos em reunião, acabaram enveredando para estas carreiras”, conta. “Alguns são bastante bem sucedidos, agora, quase dez anos depois. Gente que teve o primeiro contato com o direito, por exemplo, sendo um juiz micronacional, acabou formando-se em direito”.
Para Castro, o micronacionalismo é um aprendizado para os jovens e acaba ajudando-os a perceber suas vocações, inclusive sacerdotais. “Há cidadãos que foram padres micronacionais e acabaram entrando depois para o seminário”. Castro não sabe dizer se o ingresso em um país virtual encobre frustrações na vida real. Se pessoas que não se realizaram financeiramente, ou na profissão, por exemplo, vêem no micronacionalismo uma válvula de escape.
“Não saberia dizer. No meu caso, gosto do micronacionalismo pois sou empresário do ramo imobiliário, dirijo mais de 150 pessoas na vida real e deixei de lado as minhas aspirações políticas da juventude por diversos fatores. Exerço minha veia política e jornalística em Reunião, onde atuo ativamente na política e possuo um dos mais tradicionais jornais do país, O Cometa”, conta.
Do virtual para o real
Castro afirma que não necessariamente procura-se instituir numa micronação, as leis, regras, sistemas de governo que se gostaria de ver aplicados no mundo real. “As regras, estatutos e normas vigentes em Reunião são ideais para uma micronação, pois esta tem poucos membros e todos os que participam são a elite. Não há pobres, nem pessoas oprimidas, pois só está em Reunião quem quer estar”, afirma. “Assim, fica difícil traçar paralelos entre Reunião e um país de verdade”.
Ele esclarece, no entanto, que não se trata de um país ideal, mas sim da simulação de um país real. Desta forma, os conflitos existem em Reunião e por isso, há um conjunto de leis e regras. A diferença é que estas são cumpridas. Uma simples reclamação pode derrubar um deputado.
Imperador de Reunião, Castro acredita que, no caso da insatisfação com a política brasileira, o micronacionalismo serve como forma de extravasar. “Neste caso, creio que sim, pois se no macromundo um deputado não te atende, fica tudo por isso mesmo. Já no micromundo, 12 eleitores são capazes de eleger um Qualícato (o nosso deputado), e cada um deles tem que estar satisfeito, qualquer reclamaçãozinha pode derrubar um governante”.