Acredito que todo detentor de cargo executivo deveria ter sobre a mesa de trabalho três livros: a Bíblia, a Constituição Federal e a Constituição Estadual. Tudo me leva a crer que um de nossos ex-governadores não dispunha de nenhum desses livros. Sobre sua mesa, aberto, para consulta, “O Príncipe”, de Nicolo Machiavelli (1469-1527). Vaidoso ao extremo, quis superar o escritor e político italiano, criando, no serviço público, uma avaliação de todo subjetiva, atribuindo-se o conceito: “Muito bom”, “bom” e “regular”. O conceito “muito bom” conferia ao agraciado 5% (cinco por cento) de aumento salarial... Ao transferir-me para uma nova unidade escolar, fora contemplado com o conceito “regular”. Um vexame! Pedi licença e retirei-me envolto em profundo constrangimento. No ano seguinte, fora contemplado com o conceito “muito bom”. A diretora cumprimentou-me:
- Parabéns! O que tem a dizer?
- Dizer-lhe que meu trabalho não fora em nada superior ao do ano anterior! Se me permite...
Outros conceitos aconteceram desde então. Os anos apagaram-nos de minha lembrança. Lembro-me apenas do conceito “regular”. Não o esqueci porque o mesmo fora discriminatório. E ninguém esquece a discriminação. Ela machuca. Dói profundamente!
Tal lembrança ocorreu-me ao saber que as merendeiras de Bauru não receberão o “vale-alimentação”. E ninguém merece tanto quanto estas abnegadas servidoras. Não, não é pelo valor. Mas pela atitude! Sentem-se discriminadas! Já fui vereador, poupem-me, portanto, de argumentos atinentes a dotações orçamentárias, a licitações, à Lei de Responsabilidade Fiscal. Bem sei que são atitudes sérias merecendo todo o respeito. Mas... do lado de lá das leis, a presença de pessoas humildes, responsáveis e conscientes do dignificante papel que desempenham. Esdrúxulo o argumento de que as mesmas não recebem o vale-refeição, por se alimentarem no local de trabalho. Não falo de alimento. Não falo de fome.
Não me refiro à alimentação. Falo de injustiça. Quantas vezes fora avisado por uma das merendeiras, ao longo de aproximadamente 40 anos, que naquele dia “seria servida sopa de fubá”... Um convite irrecusável. Mais do que a preciosidade do alimento bem feito, a delicadeza da merendeira que viera convidar-me. Dir-me-á o leitor: “O professor carecia do alimento?” Não, por certo que não! Mas era uma maneira de corresponder à gentileza dessas abnegadas servidoras que, além do mais, são bem a imagem do “bem querer” de nossas crianças que simplesmente as adoram. E que, quando forem governantes, não se esqueçam do amor, do carinho, com que são servidas por nossas merendeiras.
Que pensem nisso nossos dignos representantes. Ah! há um orçamento em vigor. Que o modifiquem! O que não se apaga é a dor de ser discriminado. Pensem nisso!
Álvaro Baptista Pontes