08 de julho de 2026
Articulistas

Asas de cobras


| Tempo de leitura: 3 min

Deus não dá asas para cobra! Esse ditado é reconfortante, quando observamos as principais características dos ofídios: sorrateiros, silenciosos, imprevisíveis e, em sua maioria, venenosos. Imaginem se tivessem, por exemplo, as mesmas habilidades de uma ave de rapina! Prestar atenção por onde anda não seria mais suficiente... Mas, mesmo não podendo voar algumas espécies de cobras e serpentes desenvolveram capacidades impressionantes de deslocamento: rastejam com velocidade razoável, nadam com desenvoltura e escalam árvores, donde se lançam sobre suas vítimas. As espécies não venenosas, nem por isso são menos perigosas, pois algumas são dotadas de musculatura poderosa, capaz de envolver suas presas, sufocá-las ou esmagá-las, antes de devorá-las. Sobre as venenosas: existem as cujo veneno é letal e as que provocam um estado de letargia na vítima, deixando-a à sua mercê, antes de engoli-las.

Não é à toa que os ofídios sempre foram símbolos de sensualidade e perfídia, ora amaldiçoados - Adão e Eva que o digam! -, ora venerados. Mas isso não tira a sua importância como elemento de equilíbrio do meio ambiente. Mesmo o seu veneno, além de servir para a produção de antídotos, também tem utilidade no tratamento de hipotermia e algumas enfermidades vasculares. Além disso, ainda é comum nos referirmos a profissionais especialistas, como “cobras”, num claro e bem vindo elogio! Mas, existem outros tipos de “cobras”, muito mais perigosas que seus similares do reino animal, principalmente por um motivo: seu “veneno” atinge, direta ou indiretamente, várias vítimas de uma só vez, provocando uma agonia lenta e dolorosa. Seu habitat é a política e vivem de corrupção. Talvez por isso já estejam acostumados quando falamos “cobras e lagartos” sobre suas atitudes; afinal, vivem num “ninho de cobras”.

O “veneno” que destilam e inoculam, com seus “botes”, provoca vários efeitos: letargia, pela alienação; dependência, pelo aliciamento sedutor; ignorância, violência, doença e morte. Depois que atingem a fase “adulta”, passam a agir por instinto, “natural”; perdendo, definitivamente, qualquer noção de humanidade, ética, honestidade e honra. Vivem para inocular o veneno da corrupção, do vício e da ganância sem limite.

É difícil controlar sua proliferação, pois se multiplicam e perpetuam em progressão geométrica, disseminando seus “ovos”, que geram obedientes e adaptadas “cobras criadas”. Quando os mecanismos de defesa da sociedade falham, assumem proporções de verdadeira praga, causando prejuízos incalculáveis! Antídotos e paus existem, mas não têm sido adequadamente administrados, talvez porque a proliferação de “cobras” esteja fora de controle ou, pior, elas estejam, progressivamente, assumindo o controle... Em algumas sociedades e países é tão arraigada, que já assumiu proporções de “instituição”, inatingível e inabalável!

Assim, alheios, insensíveis e impunes, fazem de tudo para prosperar, não importa o quanto tenham que rastejar e freqüentar os subterrâneos da vida. Raça de víboras, no templo da humanidade, algumas chegam, até, a voar! Mas, Deus não dá asas para cobra! Conclusão: esse recurso só pode provir do lado extremo-oposto da virtude! O que justifica o inferno a que o povo fica submetido! Para esse tipo de “cobras” só há um tipo de solução: remover suas “presas”, podar suas “asas” e confiná-las, onde fiquem bem visíveis e não possam reproduzir ou fazer mal a mais ninguém! O problema é determinar, ao certo, a real extensão das ramificações do “ninho”...

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é escritor, engenheiro e professor universitário, mestrando Educação, autor do livro: “Sobre Almas e Pilhas”