São Paulo - Um habeas corpus movido ontem no Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo em favor de Suzane von Richthofen, 22 anos, pede a suspensão do processo em que ela é acusada de ter participado da morte dos pais, em 2002, sob a alegação de que a ré sofre de uma deficiência mental, a oligofrenia. Oligofrenia é um tipo de retardamento mental que causa diminuição da inteligência.
O pedido foi feito pelo advogado Pedro José Sperandio Cano Galhardo, que diz não conhecer Suzane nem os advogados de defesa da jovem. “As reações dela mostradas na TV também não são as de um adulto normal. Tive uma (cliente) presidiária que conviveu com ela na prisão e me conta sobre o comportamento dela, que não é normal”, diz.
Por lei, qualquer cidadão pode pedir habeas-corpus. Galhardo afirmou ontem que quer evitar uma injustiça. "Ela pode ser uma pessoa doente, que não tem noção da gravidade do que cometeu." Para ele, a jovem tem reações estranhas, como o comportamento infantil mostrado em abril em entrevista ao "Fantástico", da Rede Globo.
Suzane, seu ex-namorado Daniel Cravinhos e o irmão dele, Christian, reús confessos deveriam estar sendo julgados, mas as manobras adotadas pelos advogados das duas partes fizeram com que o júri fosse adiado para o próximo dia 17 de julho.
No pedido de habeas corpus, o impetrante requer que Suzane seja considerada inimputável, ou seja, não possa ser responsabilizada pelos crimes. O recurso será distribuído hoje para o desembargador José Damião Cogan, que irá julgá-lo.
Quem sofre de oligofrenia teve o desenvolvimento cognitivo interrompido, ou seja, a inteligência parou de se desenvolver. Por isso, a pessoa não consegue tomar decisões por conta própria e se torna extremamente dependente dos outros, segundo o psicólogo Antônio de Pádua Serafim, coordenador do Núcleo de Psiquiatria e Psicologia Forense do Hospital das Clínicas. "Mas uma pessoa que estudou Direito não pode ter retardo mental. Ela pode ter imaturidade emocional, mas não imaturidade cognitiva."
Um dos advogados de Suzane, Mauro Nassif, disse que não tem nada a ver com o pedido. "Ela é super equilibrada, normal. Maluco é ele. Isso será arquivado." O outro defensor da jovem, Mário Sérgio Oliveira, e o advogado Denivaldo Barni, com quem ela está morando, não se manifestaram sobre o pedido.
Entrevista
Os advogados de Suzane recorreram ontem ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para retirar dos autos a entrevista concedida por ela à Rede Globo no último mês de abril para que não seja exibida aos jurados durante seu júri, marcado para julho.
Na última sexta-feira, antes da primeira data marcada para o júri, o TJ havia negado pedido semelhante. Suzane concedeu a entrevista quando estava em liberdade provisória. Ela foi presa um dia após a exibição da reportagem, na qual aparece com roupas de temática infantil e pantufas, agindo timidamente e chorando.
O material causou polêmica porque, a certa altura, seu advogado aparece orientando a cliente a chorar e a demonstrar fragilidade diante das câmeras. Também na sexta, Mauro Nassif, recém-contratado por Suzane, admitiu que a entrevista “foi artificial”. “Eu não era advogado dela na época (da entrevista). Se eu fosse, jamais ela apareceria de blusinha do Mickey, sapato de coelho.”
Decisão
O pedido de habeas corpus que pretende proibir a exibição da entrevista será analisado pelo ministro Nilson Naves. No documento, a defesa de Suzane dá três opções à eventual recusa da retirada imediata da fita. Ela propõe que a exibição da entrevista seja proibida; que a veiculação dos trechos da fita em que os advogados aparecem conversando com Suzane seja proibida; ou que o julgamento seja suspenso até decisão final do STJ sobre o pedido de retirada da fita.
O mesmo ministro revogou no último dia 26 de abril o decreto que determinou a prisão de Suzane após a exibição da reportagem. Ela agora, por ordem do ministro, cumpre prisão domiciliar. Quando negou a retirada da fita do processo, o desembargador Damião Cogan, do TJ, alegou que a fita não coloca em risco o direito de ir e vir de Suzane. “A entrevista foi voluntariamente gravada pela paciente e, em nenhum momento, a mesma entrou em detalhes sobre o crime.”
Defesa
Para os advogados de Suzane, porém, a fita e a “pressão da mídia” fizeram com que a opinião pública se indignasse “contra a pessoa do advogado, confundindo o trabalho técnico do defensor com a defesa do crime”. “a cena editada e montada tal qual trama de novela, inclusive com fundo musical, dá destaque ao momento em que um dos defensores conversava e orientava a ora paciente, de maneira reservada e pessoal”, alegam. Os advogados também acionam judicialmente a Rede Globo para a entrega da gravação bruta, sem cortes e edições.
Transmissão
O ministro Carlos Britto, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu negar anteontem o seguimento do mandado de segurança movido pela Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de São Paulo (Acrimesp) para exigir permissão para gravar e transmitir o julgamento de Suzane von Richthofen e dos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos.
O mandado de segurança era a terceira tentativa da Acrimesp de conseguir a transmissão do julgamento. O Órgão Especial do TJ e STJ já haviam negado pedidos semelhantes. Para a Acrimesp, a transmissão “é de interesse de todos os cidadãos para a transparência da Justiça”.
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Julgamentos separados
São Paulo - Os advogados de Suzane von Richthofen, ré confessa no processo que a acusa de ter planejado e participado da morte dos pais em 2002, devem insistir para que ela seja julgada separada dos irmãos Daniel e Christian Cravinhos, seus comparsas no crime.
Suzane prefere ser julgada sem os Cravinhos porque a principal estratégia de defesa dela é acusar Daniel, seu namorado na época do crime, de tê-la coagido a matar os pais sob pena de perdê-lo. Segundo o advogado de Suzane Mauro Nassif, por ser rica, a jovem era chamada na família dos irmãos de “galinha dos ovos de ouro” e “bilhete premiado”. Daniel também acusa Suzane. Conforme depoimento dado por ele à Justiça, foi a jovem quem propôs o crime. Os irmãos dizem que, para convencê-los de participar do plano, Suzane dizia ter sido agredida e abusada sexualmente pelo pai, o engenheiro Manfred von Richthofen. De acordo com Nassif, como as duas partes se acusam mutuamente, o julgamento deverá ser separado.
Folhapress