11 de julho de 2026
Bairros

Bauruense denuncia criança na rua, mas poupa ajuda aos pais

Lígia Ligabue'
| Tempo de leitura: 2 min

Para uma criança, o que é pior: ficar toda a tarde debaixo do sol recolhendo material reciclável na rua ou passar frio durante a noite vendendo bala em semáforo? Segunda-feira será comemorado o Dia Internacional de Luta Contra o Trabalho Infantil enquanto a Secretaria Municipal de Bem-estar Social (Sebes) constata que a maioria das crianças que trabalham em Bauru recolhe material reciclável na rua, mas o Conselho Tutelar não registra nenhuma denúncia sobre isso. De acordo com a entidade, o tipo de trabalho infantil mais denunciado é o de crianças e adolescentes vendendo balas e doces nas ruas da cidade.

“O que tem sido denunciado são as vendas de doces nos semáforos”, explica a presidente do Conselho Tutelar, Cássia Tosim Paley. “Geralmente, as crianças que recolhem sucata estão com os pais, então as pessoas não fazem essa associação (de trabalho infantil). Acreditam que estão ajudando a família”, avalia Paley. De acordo com Rosângela Lenharo, assistente social coordenadora do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), mantido pelo Governo Federal e pela Sebes, as situações de trabalho infantil mais comuns são crianças recolhendo reciclável, seguida por venda de doces e num percentual menor, guardando carros e trabalhando na manutenção da casa.

Para ela, a falta de denúncias sobre crianças trabalhando com rcicláveis também é uma questão cultural. “Muitos dizem que é melhor estar trabalhando do que roubando, usando drogas. O estar na rua para trabalhar é visto com bons olhos. Ainda que embaixo do sol, puxando um carrinho pesado, isso é moralmente aceito”, aponta.

Sobre o trabalho doméstico, Lenharo afirma que deixar todas as tarefas da casa somente para uma criança é o que carateriza exploração. “Mas ensinar a executar algumas tarefas, não podemos considerar como exploração. Tem que analisar cada caso”, ressalva. De acordo com a conselheira tutelar, o número de crianças trabalhando com coleta de recicláveis pode estar caindo. “Desde a pesquisa divulgada pela Instituição Toledo de Ensino (ITE) - que mostrou que essa era a principal forma de trabalho infantil em Bauru, no final do ano passado, - a Sebes identificou e está trabalhando com essas famílias”, observa Paley.

Perfil

A maioria dos casos de trabalho infantil apurados pelo Peti são de crianças entre 6 e 13 anos, grande parte meninos. Moram em bairros da periferia, como Pousada da Esperança, Jardim Ivone, Parque Jaraguá, Núcleo Fortunato Rocha Lima e Ferradura Mirim. Mas o Jardim Bela Vista também apresenta vários casos. “Até os 12 anos, a criança vai (para a rua) para trabalhar. A partir daí começam a ter outros interesses e fica mais perigoso. Ficando mais tempo na rua, podem ter contato com drogas, mendicância”, explica. Para a assistente social, quanto mais tempo a criança e o adolescente estiverem na rua, mais difícil convencê-los a participar do programa. “O Peti tem muitas regras e horários, coisas que eles não encontram na rua. Geralmente, se não tiver um pai ou responsável por esse cuidado, acaba abandonando (o programa)”, relata.