07 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O Código


| Tempo de leitura: 3 min

Afora todos os comentários a respeito do filme ‘O Código da Vinci’, gostaria de incluir mais um. O filme pode nos fazer refletir sobre os motivos que temos para acreditarmos se algo é verdadeiro ou falso.

Nos tempos de hoje, tudo o que é considerado conhecimento verdadeiro provém do âmbito da ciência. Somos levados acreditar em tudo que é comprovado cientificamente porque a ciência é uma forma de conhecimento confiável. O que a torna confiável são todos os processos, passos e procedimentos que devem ser realizados para se chegar à verdade científica, além de seus resultados, que trazem inúmeros benefícios a toda a humanidade.

E mesmo que alguns conhecimentos científicos se tornem ultrapassados, ou são superados por novas descobertas, não chegamos sequer a desconfiar deles, mesmo porque nem sempre os compreendemos ou temos acesso sobre como eles foram construídos. Os conhecimentos científicos são construções humanas que se estabelecem por um conjunto de normas e regras e são respeitadas pelos estudiosos, a fim de eles definirem o que é verdadeiro e o que é falso. O exemplo máximo de ciência atual fica por conta dos estudos dos genes, pelo qual há uma natureza a ser conhecida e para tanto se faz necessário desvendar seu código.

Já os conhecimentos religiosos são da ordem da tradição. São passados de geração a geração e não são contestados mas aceitos. Apóiam-se em documentos antigos para se estabelecerem como verdade, além da Bíblia, que é o documento mais lido por toda a humanidade. Muitas vezes, as crenças religiosas se chocam com a racionalidade da influência científica, como é o caso das discussões entre criacionistas e evolucionistas, o uso ou não de preservativos sexuais e de anticoncepcionais e por aí afora...

O autor da história do filme cria uma polêmica, ou seja, ele questiona fatos sobre a vida de Jesus, apoiando-se em fatos criados por ele, mas com o mesmo rigor de um conhecimento científico,ou seja, por meio de atos e conhecimentos históricos que são desvendados, lembrados ou esclarecidos pelos personagens da trama. Assim, desde o início, o autor coloca a necessidade para o espectador, de descobrir uma verdade que está oculta, ato que segue o princípio científico desde a época do Iluminismo, significando esclarecer, iluminar, desvendar, enxergar... tudo aquilo que é um mistério para o homem.

A polêmica gerada pelo filme se dá mais pela forma, como os conhecimentos se engendram, já que parecem ser reais; e não pelo conteúdo, já que parece haver, na história real, evidências mais relevantes sobre a vida de Jesus, assim como a conhecemos, do que as fantasiadas pelo autor. A genialidade do filme está em contrariar uma verdade e colocá-la em dúvida. É como se o autor nos ensinasse a maneira de se construir uma verdade. O filme é realmente uma fórmula para tal. E o interessante disso é que Dan Brown está questionando, tanto uma verdade religiosa, o modo como as demais verdades são construídas, inclusive as científicas, quanto ao uso de tais verdades, pela humanidade.

É interessante vermos o filme como se ele próprio fosse um código que, como qualquer outro código, quer comunicar algo e para tanto é preciso decifrá-lo, e não apenas assisti-lo passivamente, aceitando a ficção como uma verdade, mas tentando ver nas entrelinhas...

Maria Rosa Alfredo Marques - RG 20064937-1