08 de julho de 2026
Cultura

A polêmica do bordel

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

A polêmica está armada e, não há como negar, possui ligações intrínsecas na história de Bauru: enquanto o Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac) defende o tombamento arquitetônico ou histórico-cultural da chácara onde funcionava o bordel de Eny Cezarino, a cafetina mais famosa do Brasil, os atuais proprietários do imóvel planejam sua demolição para iniciar as obras de um condomínio residencial no local.

No meio da discussão fica a população da cidade, que parece ter opinião dividida, conforme verificou o JC ontem. Há aqueles que não enxergam qualquer motivo para o tombamento da chácara, seja por razões históricas ou arquitetônicas; e existem os que preferem destacar a importância da Casa da Eny para a divulgação do nome de Bauru nas décadas de 1950 e 60. Alguns pedem até mesmo para deixar a hipocrisia de lado e assumir a presença do bordel mais conhecido do País justamente em Bauru.

A polêmica ganhou mais um capítulo ontem, em razão da reunião mensal dos membros do Codepac. Os integrantes pretendiam divulgar uma nota na qual reiterariam sua intenção de iniciar o processo de tombamento da propriedade de mais de 15 mil metros. No entanto, eles decidiram esperar até amanhã, data em que devem visitar o local para conhecer melhor as antigas instalações da Casa da Eny e analisar as atuais condições de preservação da chácara.

De acordo com o presidente do Codepac, Henrique Perazzi de Aquino, que também é diretor do departamento de Proteção ao Patrimônio Cultural da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), há membros da entidade que não conhecem a edificação e a visita servirá para dar-lhes fundamento à abertura do processo de proteção da construção original ou a negativa da proposta. Ele acrescenta que a visita estava marcada para o mês passado mas os proprietários atuais do imóvel tiveram de desmarcar por problemas particulares.

Aquino ressalta que o Codepac já possui dois pareceres sobre a chácara, que tem arquitetura com elementos especialmente das décadas de 1940 e 50. A avaliação quanto ao valor arquitetônico seria contrária ao tombamento, enquanto a opinião sobre seu valor histórico apontaria como indicada a preservação do antigo bordel. “Os pareceres não são obrigatórios, mas fazemos questão de ter opiniões diversas para podermos analisar”, frisa Aquino. O Codepac pretende obter mais opiniões na visita de amanhã.

De qualquer forma, Aquino garante que o tema não será votado pelo Codepac de forma precipitada. Depois da visita, o órgão deve divulgar uma nota oficial com as intenções de tombar ou não o imóvel e suas justificativas. “Nossa próxima reunião é no dia 26 de junho e não teremos nenhuma (reunião) extraordinária por conta desse assunto”, enfatiza.

Inclusão social

O jornalista Lucius de Mello, que é autor do livro “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”, uma biografia sobre a vida da paulistana com destaque para o período em que comandou a casa em Bauru, é favorável ao tombamento do imóvel, mas gostaria que a casa fosse transformada em um espaço para uso social.

“Eny trabalhou pelas causas sociais da cidade, fazia caridade, cuidava de pessoas carentes. A chácara poderia ser usada para produção de conhecimento e inclusão social de menores em situação de risco”, comenta.

De acordo com Mello, por diversas vezes Eny foi convidada para abrir o livro de ouro dos clubes sociais e efetuar grandes doações para as causas defendidas. “O primeiro tinha que doar uma quantia alta e ela correspondeu diversas vezes”, relata. “A Casa da Eny faz parte da memória do Município, queiram os moralistas ou não. Já que as prostitutas eram marginais, por que não fazer da casa um local para pessoas que estão em situação de risco e evitar que meninas tornem-se prostitutas e que meninos entrem para o tráfico?”, questiona.

A reportagem procurou Caio Marcos Banuth, um dos responsáveis pelo imóvel, que preferiu não se pronunciar no momento. Ele aguarda a visita dos membros do Codepac para receber a decisão definitiva do órgão quanto a intenção de tombar ou não a histórica chácara.

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Eny

Paulistana de origem italiana, foi em Bauru que Eny Cezarino encontrou seu caminho e tornou-se conhecida em todo o País nas décadas de 50 e 60 por ser proprietária do famoso bordel Casa da Eny. Pela propriedade de mais de 15 mil metros quadrados, passaram celebridades, políticos e empresários.

Preocupada em oferecer conforto e serviço de qualidade a seus clientes, Eny abria as portas de seu estabelecimento e disponibilizava a eles quarenta quartos, duas suítes, piscina, jardins, sauna, bares e restaurante. Devota de São Jorge, conta a história que ela sonhava em ser mãe, mas sofreu vários abortos. Aconselhava suas meninas a não engravidar, embora tenha criado dezenas de filhos delas.

O bordel lhe rendeu fama e dinheiro, mas Eny morreu pobre numa cama de hospital em 24 de agosto de 1987, aos 69 anos.

Da Redação