09 de julho de 2026
Política

CEI é vista com cautela na Câmara

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Eram 15h20, ontem, e dez vereadores estavam reunidos na Câmara Municipal de Bauru para discutir se iriam ou não à coletiva de imprensa convocada pelo prefeito Tuga Angerami (sem partido) para anunciar os custos da Empresa de Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e explicar a polêmica do lixo na cidade. Com a reportagem veiculada ontem pelo Jornal da Cidade, revelando que a crise em torno da terceirização do lixo teria origem em uma suposta contribuição financeira de até R$ 400 mil à campanha eleitoral vencida pela aliança Tuga-Purini, em 2004, os parlamentares passaram a discutir a necessidade de abertura de Comissão Especial de Inquérito (CEI) para apurar os fatos.

Antes da reunião dos vereadores começar, no entanto, o presidente da Câmara Municipal, Toninho Garmes (PSDB), recebeu um telefonema do prefeito, onde este informou que a coletiva fora cancelada e que a coleta de lixo não seria mais terceirizada, causando alvoroço entre os presentes. A intenção do prefeito, conforme nota divulgada posteriormente pela assessoria de imprensa, era eliminar quaisquer dúvidas quantos à suposta doação de campanha.

Entretanto, o tiro saiu pela culatra. Ao invés de eliminar as dúvidas, a decisão de Angerami só fez aumentar as incertezas entre os vereadores, que cobram explicações e não descartam a possibilidade de abertura de CEI. Os parlamentares ainda esperam explicações do prefeito.

“Onde há fumaça, há fogo. O jornal traz uma matéria interessante sobre um possível acordo de campanha, e para sanar essa dúvida o prefeito voltou atrás. Mas ficou uma coisa desagradável, porque queria terceirizar e agora não quer mais”, ressaltou Benedito da Silva (PSDB).

Para ele, o prefeito não pode fugir da responsabilidade de explicar as denúncias à população, mas o tucano acredita que ainda é cedo para se falar em CEI. “Ainda não há fatos para abrir uma CEI, se surgir algum fato novo, vamos ter que agir. Vamos esperar as explicações do prefeito”, disse.

O discurso de Silva condiz com o que a maioria dos vereadores espera, ou seja, que o prefeito se explique. Marcelo Borges (PSDB) afirmou que Angerami já deveria ter desistido de terceirizar o lixo desde o primeiro dia de governo. “Essa questão do lixo nunca cheirou bem, sempre foi nebulosa. Acho que a partir dessa reportagem o prefeito deve uma explicação para a cidade, não é só voltar atrás e fica tudo bem. São acusações graves e que precisam ser bem explicadas”, destacou.

Audiência pública

Já o vereador José Carlos Batata (PT) avaliou que diante dos novos elementos publicados pelo Jornal da Cidade será difícil segurar uma CEI na Câmara, apesar dele achar prematura a instalação de uma comissão. Em contrapartida, o petista já prepara o pedido de audiência pública para que o prefeito e o presidente da Emdurb, Renato Purini, expliquem a situação.

O vereador Arildo Lima Júnior (PP) também estranhou a mudança de postura do prefeito. Lima destacou que o recuo na terceirização, que antes seria a solução para os problemas da Emdurb, deixou de ser por causa da suposta doação recebida na época da campanha. “Será que estamos preocupados com a questão administrativa, aquilo que é mais vantajoso para a cidade com relação à coleta de lixo, ou essa decisão está sendo tomada para ressalva de uma imagem pessoal. A gente não está entendendo”, salientou. Ele também defendeu que o prefeito e o presidente da Emdurb compareçam à Câmara para esclarerecimentos.

Outro parlamentar que espera por respostas de Angerami e Purini é Primo Mangialardo (PV). O vereador ressaltou que a situação já não era boa e ficou pior com o cancelamento da terceirização por causa de uma “fumaça”. “Se é como foi falado, que não tem prova e que é uma denúncia sem fundamento, então a terceirização deveria continuar. Se parou por causa de uma fumaça, então a gente deve seguir o ditado popular: onde há fumaça, há fogo”, frisou, acrescentando à lista de quem deve se explicar o ex-diretor da Emdurb Jorge Monteiro.

O líder do prefeito na Câmara, Antônio Faria Neto (PDT), lamentou o cancelamento da terceirização do lixo. “Sempre imaginei que era difícil tocar a coleta de lixo sem terceirizar, mas em virtude dessas conversas de bastidores de que isso seria para pagar contas de campanha, o que eu acho ridículo, optou-se por cancelar”, disse.

Sobre a possibilidade de CEI, Faria disse que só vota favorável à instalação se houver fatos concretos. “Senão é palhaçada. Eu participei da campanha e não teve nada disso”, afirmou. Segundo Faria, ao contrário dos demais vereadores, o recuo do prefeito com relação à terceirização demonstra que Angerami não tem nada a esconder.

A opinião do líder do prefeito é compartilhada por outros dois aliados de Tuga Angerami: Futaro Sato (PDT) e Majô Jandreice (PC do B). Para eles, a possibilidade da campanha do prefeito ter recebido até R$ 400 mil em doações não contabilizadas são apenas especulações, sem provas concretas.