11 de julho de 2026
Esportes

Jogador do Brasil na Copa de 98, Zé Carlos revela bastidores do polêmico Mundial

Rodrigo Allegro
| Tempo de leitura: 6 min

O lateral-direito Zé Carlos participou da Copa do Mundo da França, em 1998, e conviveu de perto com alegrias e tristezas num dos mundiais mais conturbados de toda história do Brasil em Copas. Os conflitos internos entre jogadores, o problema de saúde com Ronaldo, que às vésperas da final contra a França, sofreu um ataque epilético, foram alguns dos momentos vividos pelo lateral durante sua permanência com o grupo vice-campeão na França.

Zé Carlos, que teve o seu auge no São Paulo, encerrou sua carreira em 2005, atuando pelo Noroeste, divide o seu tempo hoje administrando a Gráfica São Paulo, situada em Bauru, e com os preparativos do lançamento da sua esposa, Berta Moraes, como cantora gospel.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, Zé Carlos revelou os bastidores da Copa da França, sua passagem difícil pelo Noroeste e sobre a expectativa da Seleção Brasileira na Copa da Alemanha. A seguir leias os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao JC.

Jornal da Cidade - Você fez parte do grupo vice-campeão na Copa do Mundo da França? O que faltou para o título?

Zé Carlos - Faltou jogar um futebol superior ao da França na decisão.

JC- Só isso?

Zé Carlos - O time não jogou bem, os jogadores estavam nervosos e acabamos merecendo a derrota.

JC- Mas o episódio com o Ronaldo não contribuiu para esse fraco desempenho?

Zé Carlos - Sinceramente, não. Eu acho é que o Ronaldo não deveria ter sido escalado pelo Zagallo. Um jogador com as condições físicas perfeitas é que deveria sair jogando. O que o Ronaldo passou não foi brincadeira, ele não estava apto para jogar uma partida tão importante como aquela.

JC- Você presenciou o ataque epilético do Ronaldo?

Zé Carlos - Eu e o César Sampaio éramos vizinhos de quarto do Ronaldo e fomos os primeiros a acompanhar aquela cena chocante.

JC - O que mais chamou sua atenção no triste fato?

Zé Carlos - O Ronaldo tremia, se contorcia de dor e espumava pelo canto da boca, mas depois ele foi levado para o hospital e tudo aparentemente voltou ao normal.

JC - Outro fato marcante, em 98, foi o corte do Romário? Na sua opinião foi merecido?

Zé Carlos - O Romário estava machucado e a melhor decisão foi mesmo o corte.

JC - Após a derrota na final, foi comentado que o Brasil teria entregado o jogo devido a um suposto pedido do patrocinador, o que tem de verdade neste caso?

Zé Carlos - Esse negócio de ter entregado o jogo é besteira. O grupo que disputa uma Copa do Mundo, está concentrado na luta pelo título, pelo prazer de ser o melhor do mundo, e não preocupado com dinheiro. Não existiu nada disso e sim um dia infeliz do Brasil em campo. Se eu recebesse uma proposta dessas eu abandonaria a Seleção imediatamente.

JC - O grupo era desunido? A Seleção estava ‘rachada’?

Zé Carlos - Se eu disser que não ocorreram algumas coisas desagradáveis eu estaria mentindo. Existiam sim problemas de inveja por parte de alguns reservas em relação aos companheiros que estavam no time titular.

JC - Você pode citar os nomes desses jogadores que demonstravam inveja?

Zé Carlos - Eu não vou citar nomes. Fica chato. Depois eu vou ser cobrado sobre um assunto que já passou, além de ser taxado de antiético. Mas eu presenciei jogadores que estavam na reserva torcendo contra os titulares.

JC - O Edmundo seria um desses invejosos, já que ele falou bastante sobre a desunião do grupo em entrevistas?

Zé Carlos - Não sei, é você que está dizendo.

JC - A posição de lateral-direito é uma, se não for a mais desgastante das posições. Você, como lateral, diria o que sobre o Cafu, que aos 36 anos de idade ainda esbanja preparo físico na Seleção?

Zé Carlos - Realmente a posição de lateral é uma das mais desgastantes, mas, na minha opinião, o Cafu não está com toda essa forma física. Por méritos e bola, hoje o Cicinho deveria ser o titular.

JC - Mas então o Cafu está jogando com o nome?

Zé Carlos - Eu acho. Toda sua história dentro da Seleção e sua experiência fazem com que ele se torne quase que intocável.

JC - Em 1998, você estava melhor do que o Cafu?

Zé Carlos - Eu estava voando no São Paulo, mas depois eu fiquei dois meses só treinando com a Seleção e isso me prejudicou na Seleção, mas a responsabilidade é do treinador, só ele pode decidir quem joga.

JC - Qual a sua expectativa em relação à Seleção Brasileira, na Alemanha?

Zé Carlos - Eu acho que os jogadores estão fazendo muita graça, mas cabe ao treinador e aos mais experientes perceberem isso. Dentro de campo, os atacantes devem marcar mais e seguir o exemplo dos europeus.

JC - E os Ronaldos, o que você espera deles?

Zé Carlos - O Ronaldinho Gaúcho não rende na Seleção o mesmo que no Barcelona, mas é um craque. Já o Ronaldo Fenômeno, eu não acho que ele esteja bem fisicamente e algo me diz que ele não vai ser o craque de 98 e 2002.

JC - Mudando de assunto, você teve uma passagem conturbada pelo Noroeste, após ser afastado pelo então técnico Ivo Secchi. Esse foi o momento mais triste na sua carreira e que culminou com a sua despedida dos gramados.

Zé Carlos - Foi o momento mais triste na minha carreira. Aconteceram coisas desagradáveis com a diretoria do Noroeste e com o técnico Ivo Sechhi. Eu fui contratado quando o Juninho Fonseca era o treinador e, assim que eu cheguei, eu falei para ele (Juninho) que eu precisava de mais tempo para entrar em forma e fui prontamente compreendido. Mas depois o Juninho foi demitido e o novo treinador me afastou com mais dois jogadores, à pedido da diretoria.

JC - O Ivo Sechi não informou para você o motivo pelo seu afastamento?

Zé Carlos - O que me deixou mais triste é que o Ivo sabia que eu precisava de mais tempo para treinar, mas a diretoria me afastou do elenco titular. Eu já tinha uma carreira vitoriosa e muito correta dentro do futebol, jamais precisaria ter passado por tudo que passei no Noroeste. Não se teve respeito e consideração. Isso foi o mais grave.

JC - Mas depois você deu a volta por cima e defendeu o Noroeste, nas finais da Série A2, não dava para continuar jogando em Bauru?

Zé Carlos - Após a chegada do Paulo Comelli eu joguei somente os jogos finais, mas como estava sem ritmo acabei me contundindo. Mesmo não estando em plenas condições físicas eu ajudei o Noroeste na conquista do acesso. Depois, quando acabou o campeonato, eu repensei muito e achei melhor parar de jogar futebol.

JC - O meio do futebol é sujo? Você teve mais alegrias ou tristezas nesses anos como jogador?

Zé Carlos - Eu apenas tinha ouvido falar sobre traições e sacanagens dentro do futebol, mas após sentir na pele, eu posso afirmar que, em algumas situações, o futebol é sujo. Eu sempre priorizei a boa conduta e honestidade nos clubes. As alegrias, os amigos, títulos, e a disputa de uma Copa do Mundo, foram bem maiores do que esses dissabores dentro do futebol.