10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Nascimento existencial

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Um mestre disse a seu discípulo: “Deseje profundamente Deus, e só assim Deus surgirá em você!” Apesar do discípulo não compreender muito bem o que o mestre quis dizer, permaneceu em silêncio. Um certo dia, os dois estavam nadando em um rio. O mestre então pulou em cima do discípulo e o manteve dentro da água por um bom tempo. Quando o discípulo não podia mais agüentar, o mestre o deixou livre.

“O que você desejou enquanto estava embaixo da água?”, perguntou o mestre. “Desejei com desespero respirar”, respondeu o discípulo ainda tossindo. “Você deseja Deus com esta mesma intensidade?”, perguntou o mestre. “Acho que não”, respondeu o discípulo. “Somente quando você assim o desejar”, respondeu rindo o mestre, “vai encontrá-lo!”

Além do nascimento biológico, nós, seres humanos, temos a oportunidade de um segundo nascimento, o “nascimento existencial”. Enquanto o primeiro independe da nossa vontade, o segundo é fruto de nossa dedicação e, principalmente, da necessidade de encontrar a justificativa para o primeiro nascimento. O nascimento existencial significa a tomada de consciência da necessidade de nos conhecermos melhor e de nossa própria definição como pessoa. O nascimento existencial possui como objetivo a busca consciente do sentido de estarmos nesta existência.

Quando um ser humano se desperta para este auto-conhecimento, não somente ele começa a se perceber como ser humano e procura sua definição, mas toda a existência começa, então, a verdadeiramente conhecê-lo. Quando não fazemos este passo para o nascimento existencial, continuamos a ser mais um na imensa “massa” de seres vivos que passa simplesmente pela existência. Mas se tomamos consciência da necessidade deste auto-conhecimento e auto-definição, nosso posicionamento começa a se destacar, nosso “estar-aqui” torna-se fundamentado e começa a brilhar, a se diferenciar dos demais, a ganhar uma razão específica de ser.

No conhecimento do que somos como indivíduo, como ser social e político, toda a existência desperta seu olhar para o que somos. A partir deste despertar para a consciência do que somos e fazemos, não somente nós percebemos a existência, mas toda a existência também responde a nossa percepção. Neste sentido, este segundo nascimento é o fenômeno que envolve o ser humano em todas as suas dimensões: a relação consigo mesmo, as relações interpessoais, a participação política e social, a relação com seu meio ambiente. Por conseqüência, o nascimento existencial torna-se um fenômeno essencialmente religioso, pois transforma (religa) todas estas dimensões em um todo. Nesta experiência, o ser humano descobre que o Espírito de Deus está dentro e fora de si mesmo.

Quando nos tornamos conscientes do que somos e interagimos com nosso universo ativamente, até mesmo as verdades mais objetivas que independem de nossa vontade acabam sendo coloridas com a nossa presença e participação pessoal. Nós somos capazes de participar de forma determinante na transformação (destruição ou aperfeiçoamento) de nosso universo porque somos a “tecnologia de ponta” frente a todos os seres que também estão em desenvolvimento neste planeta. Em outras palavras, somos o que Jesus afirma, analogicamente, filhos de Deus, sendo Deus, por sua vez, nosso Pai.

A nossa relação com esta racionalidade que deu origem ao universo e à própria vida, à qual chamamos de Deus, não é somente uma relação entre criatura e criador, ou seja, um relacionamento mecânico, mas sim orgânico, íntimo, de amor incondicional. O relacionamento não é o mesmo de um mecânico com sua máquina. O mecânico não é o pai, porque permanece separado, fora da máquina, desligado. Deus não está desligado do ser humano. Ele é assim como um verdadeiro pai, ligado ao ser humano, movendo-se através de você, sofrendo com ele, trabalhando-o, amando-o. Não é por menos que Jesus diz que “Eu e o pai somos um”.

Infelizmente, quem não faz o nascimento existencial acaba ficando na situação da criança que segurava na mão do pai, mas que agora se perdeu na floresta. Todos são filhos, mas Jesus é único, porque nele esta verdade é consciente. Na maioria dos seres humanos ainda não. Por isso, nosso universo ainda não é um paraíso. Nós nos dividimos em famílias, classes sociais, religiões, nações, raças, etc. Pior, nós nos prendemos a nosso “eu” e nos esquecemos do “nós”, ou seja, de que podemos beber do mesmo espírito que está em nós, o Espírito de Deus. E este nos transforma em uma única família: a humanidade.

Ser único, fazer a diferença, encontrar o sentido da vida está intimamente ligado à consciência de que todo ser humano possui uma ligação comum com Deus, ou seja, somos seres semelhantes e amados pela imensa racionalidade geradora do universo. Jesus conhece isso, a maioria dos homens não. A miséria é a ignorância de si mesmo porque nos cega à realidade mais óbvia que possuímos.