08 de julho de 2026
Bairros

Frio acentua vulnerabilidade social

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

O inverno ainda não chegou, mas a população dos bairros pobres de Bauru já sofre os efeitos antecipados da chegada da estação. As frentes frias que atingiram a região no mês de maio derrubaram as temperaturas e prolongaram-se por diversas semanas, o que acabou por dificultar ainda mais a vida dos moradores desses lugares.

A dona de casa Gislaine de Cássia Ferreira da Silva vive há sete anos no Jardim Nicéia, zona sul de Bauru. Ela e os três filhas sobrevivem com o salário que o marido recebe como serralheiro. A casa de três cômodos é de alvenaria, mas ainda não está acabada. “O vento entra pelas paredes e quando chove a água molha tudo aqui dentro, porque o telhado ainda não está pronto”, conta. No tempo do frio, ela recorre às doações feitas pela Campanha do Agasalho para conseguir roupas para a família.

Se a ajuda de cima demora, os vizinhos se mobilizam para tentar superar a penúria. “Cada morador pega uma roupa aqui, um alimento ali, monta uma cesta básica e levamos tudo para algum morador que esteja em situação pior”, explica. Gislaine não lamenta sua situação atual. Foi moradora de rua e usuária de drogas e já esteve internada Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem).

Pensamento semelhante tem Alice Nunes dos Santos, 60 anos e também moradora do Jardim Nicéia. Na semana passada, ela organizou a distribuição de 400 kits de agasalhos e 500 porções de sopas feita pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) no bairro, de cuja associação dos moradores é presidente.

Alice recebe R$ 350,00 como aposentada e tem uma filha que mora no bairro, razão pela qual recebeu uma sacola com doações durante a distribuição, mas acabou abrindo mão dos agasalhos. “Havia mulheres grávidas e com crianças”, comenta.

A dificuldade existente em bairros como Jardim Nicéia, que possui 859 moradores vivendo em situação de risco social, é atender a todos os moradores necessitados. No final da distribuição de agasalhos, Santos foi interpelada pelo morador Manoel Silva, servente de pedreiro. Ele queria receber um kit com agasalhos, mas todos já tinham sido entregues. “Acabou, o que eu posso fazer?”, respondeu a presidente.

“Minha mulher pegou a senha, mas a gente não chegou a tempo de pegar as doações”, respondeu Silva, um homem baixo, de rosto bastante enrugado e que diz ter 43 anos e trabalhar como servente de pedreiro.

Regiões distantes da cidade possuem realidades semelhantes a do Jardim Nicéia. O Parque Jaraguá, na zona noroeste de Bauru, possui 1.580 pessoas vivendo em situação de risco social. José Rodrigues Costa, aposentado, vive numa casa do bairro. “A vizinhança aqui é boa, o problema é que tem muita pobreza”, comenta.

Metade da construção é de alvenaria, mas ainda não foi rebocada. A outra parte, de madeira, está com o telhado comprometido. As paredes estão repletas de buracos e frestas, que permitem a entrada de vento e chuva. A esposa de Costa, Silmara dos Santos Tavares, ainda tenta minimizar os problemas. “Não são tantos buracos assim. É um ou outro”, argumenta.

Ele tem vontade de reformar a casa. “O problema é que o dinheiro anda curto”, explica. Costa recebe R$ 350,00 ao mês. Além de manter a esposa, ele ainda ajuda uma filha que tem problemas mentais. “Enquanto não dá para fazer a reforma, vamos vivendo como pode”, diz.

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Campanha

A Campanha do Agasalho 2006 já arrecadou mais de 40 mil peças de roupas em Bauru (dados da última quinta-feira), segundo estimativas da Secretaria de Bem-Estar Social (Sebes) do município. “Até 15 de julho, final da campanha, esperamos atingir meta de 80 mil doações”, afirma Geralda Cristina de Paula, presidente do Fundo Social de Solidariedade de Bauru.

A meta parece ousada, mas Paula acredita que pode ser atingida. “A população de Bauru está bastante solidária, muitas pessoas têm ligado oferecendo doações”, afirma. Outro fator que pode colaborar para que a quantia seja alcançada é a participação da iniciativa privada na campanha.

“Temos 80 empresas participando da arrecadação”, diz ela. Segundo dados da Sebes, Bauru possui mais de 19 mil pessoas vivendo em situação de risco social. São quase 4.000 barracos catalogados pela secretaria, em todo o município.

A Campanha do Agasalho é organizada numa parceria entre o Fundo Social de Solidariedade de Bauru e a Sebes.