11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: De Tobias a Tuba, uma saga radiofônica

Erika Pelegrino
| Tempo de leitura: 11 min

Numa kombi, munido de um rádio amador, Tobias Ferreira partiu para Brasília para transmitir para Bauru a inauguração da nova capital do Brasil. Essa uma aventura e tanto é uma entre as várias histórias vividas por essa legendária figura do rádio bauruense e relembradas por seu filho Tobias Ferreira Gomes Filho, o Tuba, em entrevista ao Jornal da Cidade.

A própria história de Tuba também é marcada pelos 29 anos de atuação em rádios AM e FM, nas quais idealizou programas de grande sucesso, como o “Caça à Raposa”, o “Super Pla”, a “Hora Maldita do Rock”. Porém, quem poderia imaginar que por trás da história de sucesso no rádio se escondia um outro sonho: trabalhar em televisão.

Sonho este que Tuba está realizando nos últimos três anos como o programa “Nota Dez”, na TV Record. O programa já esteve em 16 cidades destacando cultura, lazer, turismo, arte. Sempre muito dinâmico, Tuba também esteve à frente de outros projetos, como a agência de modelos Nota Dez e casas noturnas. Conheça um pouco mais do comunicador na entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - A família dos Tobias Ferreira sempre foi ligada ao rádio. Como foi o início da carreira de seu pai, Tobias Ferreira?

Tobias Ferreira Filho (Tuba) - Meu pai, Tobias Ferreira, começou fazendo rádio, em Bebedouro, porque ele tocava bandolim. Ele tinha um trio com os dois irmãos dele, “Os Meninos de Ouro”, que tocavam na rádio Bebedouro. Um dia um locutor faltou e o dono da rádio pediu para dar a hora certa, ele tinha uma voz muito boa. Foi o ‘start’, começou a história dele no rádio. Ele era praticamente criança ainda, não lembro exatamente a idade dele, mas acho que menos de 18 anos, e continuava tocando bandolim, mas também era locutor da rádio. Ele cresceu rapidamente, tinha mesmo tino para o rádio, passou a dirigir a emissora. Depois começou a montar emissoras: ia para uma cidade estruturar a emissora, ia para outra e assim ele montou dezenas de emissoras de rádio na região.

JC – Em Bauru?

Tuba - Aqui em Bauru ele montou a rádio Auri Verde, que depois veio a ser proprietário, mas entre isso ele montou emissoras em Olavo Bilac, Araçatuba, Guararapes.

JC – Como seu pai foi para a Bauru Rádio Clube?

Tuba – Ele dirigia a Rádio Terra Branca e tinha sido convidado para ir para a rádio América, que era uma espécie de TV Globo, era “a rádio do rádio”, o Brasil todo ouvia. A Bauru Rádio Clube passava por uma grande crise e o dono dela, o João Simonetti, uma figura muito importante do rádio em Bauru, convidou meu pai para levantar a emissora. Meu pai aceitou. Ficou, dirigiu-a e fez algumas coisas históricas nela.

JC – Conte algumas delas.

Tuba - Em 1961 não existia FM, nem estéreo. Audio Fidelity foi que lançou os primeiros discos estereofônicos no Brasil. Meu pai tinha um toca-discos estéreo, lógico que na rádio não dava para ouvir música estereofônica, mas a Bauru Rádio Clube tinha o transmissor de ondas médias, ondas curtas e onda tropical (que hoje quase não existe mais). Ele pegou o toca-discos dele, tirou o sinal de um lado da cápsula e mandou para o transmissor de ondas médias, o outro ele mandou para o transmissor de ondas tropicais; e em 1961 ele lançou um programa que se chamava show estereofônico. Ele colocou o Brasil - não sei se foi o segundo ou terceiro país do mundo na era da música estereofônica no rádio.

Na época, a Audio Fidelity veio a Bauru, falaram “olha tem um picareta no Interior dizendo que está tocando música estereofônica e ele fala que são os discos de vocês”. A Áudio Fidelity mandou dois representantes aqui para desmascará-lo. Meu pai colocou as duas pessoas na sala dele, foi para o estúdio e fez o programa. Ele usava dois microfones, canal direito e canal esquerdo e no final as pessoas acabaram dando um documento a ele dizendo que realmente ele estava fazendo estereofonia.

JC – E como foi a transmissão da inauguração de Brasília para Bauru?

Tuba - Esta é outra coisa que ele fez de forma pioneira. Ele transmitiu a inauguração de Brasília para Bauru, numa época em que não existia nem Embratel, através do rádio amador. Ele foi com alguns amigos de Kombi para Brasília. Foram muitos dias de viagem. Chegou lá, não tinham onde ficar, foram se aventurando. Lá, havia ainda a dificuldade de falar com Bauru porque não tinha Embratel; então, eles ligaram o rádio amador e começaram a chamar Bauru. Meu pai passou a noite tentando falar com Bauru e não conseguia porque a pessoa que instalou a antena fez uma gambiarra, virou a antena do lado errado. Quando amanheceu o dia, ele já estava cansado, não agüentava mais, foi quando olhou para cima e viu que a antena estava do lado errado. Depois disso, conseguiu o contato com Bauru. Como já era o dia da inauguração, ele não teve tempo de preparar nada, então começou a transmitir ao vivo. Ele falou o dia inteiro, sem retorno de Bauru. No final do dia, quando as comemorações pararam, ele começou a sintonizar a rádio para ver se descobria se tinha chegado alguma coisa. Daí ele ouviu um locutor da emissora da Rádio Bauru conversando com outro e perguntando o que tinha achado da transmissão de Tobias Ferreira da inauguração de Brasília. Daí ele foi tomar uma garrafa de pinga e dormir.

JC – Seu pai tinha uma veia jornalística latente. Ele era conhecido como o profissional que buscava as notícias e enfrentava dificuldades até consegui-las.

Tuba - Ele era conhecido aqui em Bauru como repórter da cidade. Naquela época, a guerra da informação era muito grande. Um repórter queria furar o outro, o grande lance era ser o primeiro a dar a notícia. Meu pai sempre furava todos. Uma vez, dois repórteres daqui - não vou falar o nome porque senão fica chato - fizeram uma combinação: iria chegar uma autoridade no aeroporto de Bauru (não me lembro o nome) e um deles iria distrair o Tobias enquanto o outro pegava a entrevista em primeira mão.

Meu pai percebeu que estava em desvantagem e no hangar viu o cara que tinha a escadinha que é colocada no avião. Não sei como ele sempre conseguia isso, mas ele falou com o cara e foi escondido na escadinha e pegou a entrevista com a autoridade ainda na porta do avião.

JC – E como foi o seu ingresso no rádio?

Tuba - Nasci no meio radialístico e meu pai forçava a barra para que eu fosse para o rádio. Eu dizia que não, que ia ser médico, vou ser isso, vou ser aquilo. Ele foi esperto. Num Natal, ele me deu um gravador minicassete, foi logo que lançaram. Eu queria gravar músicas para ouvir e ia na rádio do meu pai e pedia para o pessoal gravar para mim. Eles me ensinaram e eu mesmo gravava, daí não parei mais.

JC – Mas o seu sonho não era rádio, certo?

Tuba - Meu sonho sempre foi televisão. Trabalhei na rádio o tempo todo sonhando com televisão. Com 6 anos de idade eu estava na televisão. Meu pai fazia sorteios do legionário Toddy, tinha um programa, que eu não me lembro qual, e num momento se fazia sorteio de cartas para ganhar uniforme do legionário Toddy e eu estava lá de modelo. Na verdade, eu fiz rádio para aprender a fazer televisão.

JC – Como foi sua trajetória no rádio?

Tuba - Comecei com 14 anos na parte de gravação, produções comerciais, fui sonoplasta e montei, junto com meu pai, a FM 94, em 1978. Fui diretor da emissora por dez anos. Primeiro cuidei da programação, montava a programação da rádio, dirigindo a parte artística da rádio. Só em 1980 me tornei locutor, comecei a fazer alguns programas que tiveram muita repercussão, como o ‘Super Pla’, ‘Caça à Raposa’, que revolucionou a programação...

JC – Como era o “Caça à Raposa”?

Tuba - A gente escondia a unidade móvel da rádio num local para os ouvintes encontrarem. Quem encontrava, ganhava prêmios: caixa de cerveja, capacetes, luvas. Virou uma febre. O programa era às 18h do sábado. Logo tive que mudar, dificultar, porque as pessoas encontravam muito rápido. Então, passei a dar pistas que levavam a outro local onde receberiam outra pista, assim por diante, até a pista final que levaria à raposa. Foi tomando uma dimensão tal que troquei a unidade móvel por cinco raposas de pelúcia.

Era tanta gente participando que mudei o programa para domingo à tarde, porque tinha menos movimento nas ruas. Até que tive que acabar com o programa porque saiu do controle de tanta gente, motos, carros, correndo para encontrar a raposa. Por sorte nunca ninguém se machucou.

JC - E o “Super Pla”?

Tuba - Este era um programa de correio elegante. Também com muita audiência, muita gente participava.

JC - Isto na FM?

Tuba - É eu fui meio na contramão do formato inicial da FM, que era mais enxuto. Eu pegava o microfone e falava e deu certo, tanto que hoje todos fazem assim. Tive também o programa “Hora Maldita do Rock”, que ia ao ar de madrugada.

JC – Como você analisa o destino do rádio atual?

Tuba - Eu acho que o rádio está passando por uma fase cada vez mais complicada, principalmente o AM, que é o mais gostoso de fazer. É louvável o rádio estar vivo até hoje, principalmente o AM, mas eu acho que o rádio não acaba tão fácil. Penso que vai acontecer um afunilamento e lá na frente ele vai se encontrar com a Internet, que é o que vai acontecer com a televisão também.

JC – Por que o AM é mais gostoso de fazer, na sua opinião?

Tuba - Para quem faz rádio, o AM é mais gostoso porque a comunicação é interativa com o ouvinte, é uma coisa comunitária. O FM é muito interessante, mas é um pouco igual.

JC – Além da experiência no rádio, você foi proprietário de casas noturnas.

Tuba - Em 1980 eu fazia muitas promoções em boates. A primeira que tive foi o Clube da Seresta, onde aos finais de semana meu pai dava uma canjinha com o bandolim. Depois tive as domingueiras, que hoje seriam os bailes funks; tive o Forró do Walter Neto, que era um radialista que morreu no ano passado, muito conhecido no meio sertanejo; também fui proprietário da primeira pista de patinação de Bauru, além de um restaurante com música ao vivo de domingo a domingo, isto em 1982, quando isto não existia - tinha um público muito bom recebia até 400 pessoas.

JC – E como você partiu para a atividade de agência de modelos?

Tuba - A agência de modelos foi por causa dessa coisa de festas, daí, em 1987, o pessoal de Agudos me convidou para realizar um concurso de beleza, que eles queriam promover o clube. Depois desse foram mais 220, em 40 cidades, 6 mil modelos desfilaram. Já no final da agência tínhamos também bebês e terceira idade. No último desfile que eu agenciei coloquei 60 pessoas em comerciais de televisão. Quando eu entrei para a televisão e comecei a fazer o programa “Nota Dez”, na Record, há três anos, não deu para continuar com a agência.

JC – Finalmente você está fazendo televisão. Como é o seu programa?

Tuba - O programa é focado em arte, cultura, lazer e turismo, as coisas boas da cidade. Toda vez que acontece uma coisa ruim na cidade trombam microfones, máquinas fotográficas e vídeos para mostrá-las. Pensei então que, quem sabe, se a gente pegar a contramão, se pode obter sucesso. E funciona mesmo. Estou há três anos com o programa “Nota Dez”. Neste período passei por 16 cidades. Vamos ficar em Bauru até o final do ano. O programa é itinerante. Ele fica um tempo em cada cidade mostrando as coisas boas. O programa faz aniversário no dia 2 de agosto. Nós estamos preparando uma festa para o dia 30. Vamos trazer artistas de toda as cidades por onde passamos. Será um dia inteiro de eventos, gratuitos.

JC – E quais são os projetos para o futuro?

Tuba - Quanto ao programa, a meta é chegar a ser nacional. Mas tenho também outros projetos para os quais preciso de patrocínio, um deles é a criação da Rádio BRU FM na Internet, na qual pretendo disponibilizar todo acervo que tenho desde a época do meu pai, com entrevistas. É uma forma de resgate da história da cidade. Para isto precisamos de patrocínio.