11 de julho de 2026
Geral

Rastejando pelos bueiros, Baianinho reúne histórias sobre subsolo da cidade

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 3 min

Ele literalmente entra pelo cano. É o único profissional que realiza esse serviço em Bauru. Valdomiro Santos Oliveira, 54 anos, é técnico de manutenção das galerias que recebem as águas da chuva e, apesar do cargo ter um nome pomposo, o dia-a-dia dele não tem nada de glamour. Baianinho, como prefere ser chamado, há dez anos passa o dia rastejando pelos canos no subsolo da cidade para desobstruí-los e fazer reparos.

Conhecer a cidade de ponta a ponta, suas ruas, avenidas e travessas, já é um feito. Agora, conhecer toda a cidade como ela é abaixo do asfalto e saber andar pela tubulação de um lado a outro, é outra história. Aliás, muitas histórias. A função de Baianinho, funcionário da Secretaria de Obras, é verificar os possíveis defeitos na tubulação de água da chuva. A população reclama à prefeitura de mau cheiro vindo de uma boca-de-lobo, por exemplo, e é ele quem entra na tubulação e procura o que está causando o problema.

Para isso, chega a percorrer, em média, 200 metros de tubulação a cada solicitação. “Ih, mas já cheguei a andar mais de mil metros. Já fiquei mais de uma hora debaixo do chão”, conta o técnico com seu forte sotaque nordestino. A primeira pergunta que vem à cabeça é sobre o cheiro dentro da tubulação. “A gente se acostuma e se esquece”, diz.

E os bichos? “Barata, rato, lacraia e escorpião eu já me acostumei. Mas uma vez, quando fui fazer uma trabalho no Residencial Samambaia, dei de cara com uma cobra jaracuçu. Tive que ir tocando ela até ela cair na água. Aí, eu atravessei por cima dela”, conta como se não estivesse falando de uma cobra venenosa. Mas apesar dos riscos, nos dez anos de trabalho, Baianinho nunca sofreu nenhum acidente e garante que nunca ficou doente. “Não tenho nem dor de cabeça”, afirma.

Para ele, um dos maiores problemas é quando tem que entrar na tubulação para resgatar algum animal morto. “Às vezes, eu entro pensando que é um cachorrinho e encontro um cachorro enorme. Aí coloco ele dentro de um saco e venho arrastando”, descreve. “Quando eu entro, tem um monte de gente em volta. Quando eu saio, está todo mundo a um quarteirão de distância por causa do cheiro”, conta. Ele diz que não se perde dentro das tubulações da cidade, mas no início isso foi um problema. “Eu entrava, andava, andava e quando via um clarinho, ia até achar a saída”, conta. Numa dessas vezes, estava trabalhando na área central da cidade, mas é claro, debaixo da terra. Ele entrou na boca-de-lobo que fica em frente ao Corpo de Bombeiros e saiu em frente a uma agência bancária na rua Ezequiel Ramos. “Todo mundo achou que eu fosse um fugitivo. O povo saiu correndo. Já não sou essas coisas de boniteza e, saio de dentro do bueiro cheio de teia de aranha, o pessoal se assusta!”, diverte-se.

A única vez que ele se assustou foi há uns seis anos, quando realizava uma vistoria no Parque Jaraguá. “Eu estava trabalhando, me arrastando com água até o queixo. Aí eu apontei a lanterna e vi um negócio vindo. Vi passar uma mão por cima da água, depois um pé e aquele negócio vindo rolando. Pensei que fosse um menino morto e quando passou por mim, eu agarrei. Aí, vi que era um boneco. Mas quase morri de susto”, conta.

Isso sem falar na tubulação de água existente embaixo do Cemitério do Redentor. “Tem um monte de tatu-peba por lá. Eles cavam e, às vezes, levam pedaços de defuntos. Alguns desses pedaços acabam caindo nas galerias. Já vi dedo, mão.... Essas coisas”, relata. E Baianinho tem essa rotina de “entrar pelo cano” recebendo R$ 350,00 por mês de salário. “Ah, se o prefeito soubesse o serviço que eu faço, a responsabilidade que eu tenho com essa cidade, ele iria rever o meu ordenado”, acredita.