10 de julho de 2026
Política

Crise do lixo deve ‘esquentar’ sessão

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

As relações entre a crise do serviço do lixo enfrentada pela Prefeitura de Bauru e uma suposta doação de campanha à aliança Tuga Angerami-Renato Purini, em 2004, devem dominar os discursos dos vereadores durante a sessão de hoje da Câmara Municipal. O assunto foi levantado com exclusividade, na última semana, pelo JC em reportagem que denunciou que a crise em torno da terceirização do lixo, que se arrasta há um ano e meio, teria se originado em uma suposta contribuição financeira à campanha eleitoral vencida por Tuga e Purini.

O presidente da Câmara, Antônio Carlos Garmes (PSDB), classificou o tema como o “problema do momento” e disse acreditar que vários vereadores deverão usar a tribuna para falar sobre o assunto. “Mas a posição de cada um não sei dizer, bem como se irão requerer uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) ou audiência pública. Isso não foi conversado, pois esses assuntos, normalmente, nos reunimos na sala da presidência para tirarmos uma opinião”, afirmou.

Garmes também lamentou mais um momento delicado vivido pelo município e ressaltou que aguarda maiores esclarecimentos do prefeito e do vice-prefeito sobre a questão. “A Câmara tem o poder de investigar, mas o prefeito e o vice, primeiramente, é que devem dar todos os esclarecimentos e acho que até convencer o Legislativo e a população em geral da lisura do pleito. Aguardamos esses posicionamentos, mesmo porque já há um procedimento instaurado pelo Ministério Público da Defesa da Cidadania e do Patrimônio Público que não temos conhecimento do teor das apurações e, por isso, precisamos ficar sabendo realmente o que é que aconteceu”, enfatizou o tucano.

O vereador Marcelo Borges, um dos principais opositores à atual administração, salientou que as denúncias são graves e que o prefeito terá de se defender. “Ele não confirmou se houve ou não o caixa dois, mas o mais grave é uma suposta venda de uma concessão pública. Acho que o se o prefeito não esclarecer melhor, até porque em uma nota oficial ele não explicou nada, pode-se até abrir uma CEI”, analisou.

Defesa

Já o líder do prefeito na Câmara, o pedetista Antônio Faria Neto, defendeu o líder e vice-líder do Executivo em diversos assuntos. Questionado sobre a repercussão que o assunto poderia ter durante a sessão de hoje do Legislativo, como a discussão de uma eventual abertura de Comissão Especial de Inquérito (CEI), Faria Neto foi enfático.

“Quem quer criticar, critica sempre. Acho que uma CEI tem de ser instaurada quando há um fato concreto. E qual é o fato concreto nesse caso? Não tem. Estão falando que houve contribuição ilegal na campanha e, se houvesse isso, é algo afeto à Justiça Eleitoral e não à Câmara apurar. Vi vereador falando que é o mesmo caso do José Dirceu (deputado cassado do PT), mas isso é diferente, pois foi caso de mensalão e mensalinho, justamente o que o Tuga não faz. Teve prefeito que passou aí que dava cargo para vereador e este votava sempre a favor do chefe do Executivo. Agora o Tuga não, pois ele não aceita o fisiologismo e não tem nada de mensalão nem de mensalinho”, frisou o pedetista.

Faria Neto negou também a existência do caixa dois na campanha de Tuga e Purini e utilizou uma declaração do presidente da República como argumento para, mais uma vez, manifestar-se contra a abertura de CEI. “O Lula falou que caixa dois era normal e comum, o que não acho. Em minha campanha e na do prefeito não teve caixa dois. Se o Lula falou isso e não teve CPI para ele, porque nós iremos fazer uma CEI se estamos falando que não teve e foi tudo normal?”, questionou o parlamentar. E acrescentou:

“Fazer uma CEI para quê se sabem que o prefeito é honesto e está moralizando a administração? Acho que, se tivesse tido caixa dois, é a Justiça Eleitoral que tem de cuidar desse assunto e o Ministério Público já está investigando e tomando providências, o que é mais uma razão para não se abrir uma CEI. De qualquer forma, a oposição tem o direito de falar o que quer e, se entenderem que têm de fazer uma CEI, que façam, mas só vão dar é um atestado de idoneidade ao prefeito.”

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Entenda o caso

Em reportagem publicada na última semana, o JC apontou que depoimentos revelavam eventual doação de campanha por empreiteira do ramo, sem contabilização junto à Justiça Eleitoral, em 2004. O Ministério Público do Estado de São Paulo (MP) instalou procedimento para investigar as relações entre a crise do serviço do lixo enfrentada pela Prefeitura de Bauru e suposta doação de campanha à aliança Tuga-Purini em 2004. A apuração foi instalada com base nos levantamentos realizados com exclusividade pelo JC nesta semana.

Depoimentos recebidos pelo JC dão conta de que a crise em torno da terceirização do lixo teve origem em uma suposta contribuição financeira à campanha eleitoral vencida pela aliança Tuga-Purini, em 2004.

O atual conflito teria relação com este compromisso financeiro de campanha, que teria sido assumido em reunião, em São Paulo, antes da eleição, com as presenças de Tuga Angerami, do vice, Renato Purini, e de Jorge Monteiro, este exonerado no início do ano da Diretoria de Limpeza Pública da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano Rural (Emdurb). Pessoa diretamente ligada à coordenação de campanha fez as revelações sigilosamente ao JC.

Conforme os depoimentos colhidos pelo JC, Purini e Monteiro teriam participado de reuniões preparatórias na Capital com representante da empreiteira Marquise, através de um intermediário. As conversações teriam sido no sentido de garantir contribuição à campanha, cujas remessas teriam ocorrido em dinheiro, segundo participante do grupo de coordenação da aliança, à época.

Para definir a contribuição, o atual prefeito, juntamente com o vice, Renato Purini, e Jorge Monteiro, teriam participado de reunião em hotel de São Paulo para confirmar o recebimento das contribuições. A reunião contou com a testemunha do próprio Monteiro e Purini.

No início deste ano, Jorge Monteiro foi exonerado sem explicações da Diretoria de Limpeza Pública da Emdurb, presidida por Purini.

Da Redação