A rede pública de ensino de Bauru ainda não se conscientizou sobre a importância da alimentação saudável dos alunos nas dependências escolares. A grande maioria das escolas públicas não cumpre a portaria estadual instituída no ano passado que restringe a venda de alimentos não saudáveis nas cantinas. A constatação foi feita pela reportagem, que percorreu unidades da rede estadual de ensino na cidade.
Frituras, salgadinhos de pacote, balas, chicletes, pirulitos, refrigerantes ainda são disponibilizados para crianças e adolescentes nas cantinas desses estabelecimentos. O fato contraria a portaria publicada em 24 de março de 2005, pela Secretaria Estadual de Educação em conjunto com a Coordenadoria de Ensino da Grande São Paulo, Coordenadoria de Ensino do Interior e Departamento de Suprimentos Escolares, e que instituiu normas para o funcionamento das cantinas escolares.
De acordo com a portaria, as escolas teriam prazo de 180 dias para se adequarem. O prazo expirou e, em Bauru, nada ou pouco mudou. Crianças e adolescentes continuam se deliciando com os produtos altamente calóricos e com baixo valor nutricional vendidos na hora do intervalo.
A reportagem do Jornal da Cidade entrou em contato com 30 escolas do ensino fundamental 1 (1ª a 4ª séries), ensino fundamental 2 (5ª a 8ª séries) e ensino médio (antigo colegial). O que encontrou foram diretores, diretores, vice-diretoras que se esquivaram ao serem abordados sobre o tema.
Muitos se recusaram a dar entrevista. Outros afirmaram que suas cantinas estavam cumprindo o determinado pela lei, porém a reportagem não foi autorizada a verificar pessoalmente os produtos vendidos.
Em um dos casos, a vice-diretora, que se recusou a dar entrevista e afirmou que a cantina só oferecia produtos como frutas, sucos, lanches naturais, o que estaria prejudicando as vendas. A vice-diretora afirmou ainda que os alunos não tinham o hábito de comer aqueles produtos e o que compravam jogavam fora.
Um dos objetivos da portaria, formulada a partir de reclamações e reivindicações detectadas em pesquisa com a comunidade escolar, é justamente de transformar a alimentação nas escolas em um ato pedagógico. O mesmo preconiza a Organização Mundial de Saúde e o Ministério da Saúde.
Neste caso, como nos outros, a reportagem tentou conversar com os responsáveis pelas cantinas da escola. Porém, a vice-diretora foi enfática afirmando que a pessoa não queria “aparecer”. “Ela está tendo prejuízos e vai entregar a cantina”, justificou.
Nessa mesma escola, a reportagem, no entanto, conversou com alunos que confirmaram que compram refrigerantes, salgados fritos (coxinha, risoles, entre outros), salgadinhos de pacote, balas, goma de mascar e outros doces nas cantinas. A vice-diretora contradisse os alunos. Segundo ela, os estudantes trazem estes produtos de casa.
Em outra escola pública tradicional de Bauru, que atende crianças desde a 1.ª série até o ensino médio, a situação é ainda mais alarmante. Além de vender todos os produtos prejudiciais à saúde, sem nenhuma restrição, ainda o faz em doses tamanho familiar. É comum na hora do intervalo, de acordo com depoimento dos alunos, dois ou três alunos juntos consumirem refrigerantes de dois litros, vendidos na cantina.
Em algumas unidades escolares, mudanças foram introduzidas. Frutas, lanches naturais e sucos foram colocados à venda na cantina de uma das escolas visitadas pela reportagem. No entanto, os responsáveis pelas cantinas, que são em sua maioria terceirizadas, ao verificarem uma queda nas vendas, voltaram a comercializar os produtos proibidos.
Lado a lado
Em outras escolas, as cantinas colocaram os produtos não industrializados, mas não retiraram os refrigerantes, frituras e doces. Em um destes estabelecimentos, um grupo de alunas informou à reportagem que não consumia os produtos naturais em função da falta de variedade e dos preços.
De acordo com elas, a cantina vende apenas algumas maçãs e laranjas. “Além de só ter isso, ainda custa caro. Cada fruta custa R$ 0,50. Só os professores compram”, afirmaram. Em outra escola tradicional de Bauru que atende crianças de 1.ª à 4.ª séries a diretora alegou que não tem cantina, após os alunos afirmarem que compram de tudo no intervalo. A diretora corrigiu sua fala e afirmou que não poderia dar entrevistas.
Apenas duas escolas afirmaram que estão cumprindo o determinado pela portaria estadual, sem restrições. Refrigerantes, salgados de pacote, salgados fritos, doces não seriam mais vendidos. No lugar, estariam os produtos não industrializados. Porém, a reportagem não conseguiu visitar a cantina. A coordenadora pedagógica de um dos colégios afirmou que só poderia conceder entrevistas com autorização da diretora, que foi procurada pela reportagem algumas vezes e não retornou a ligação.