“O sonho da casa própria” é uma expressão de uso tão batido no dia-a-dia que a maioria da população dificilmente costuma refletir sobre seu significado. A questão da moradia só passa a fazer parte das preocupações cotidianas das pessoas quando se transforma em realidade palpável.
O sorteio para as vagas no Núcleo Habitacional Bauru H, entregue à população em dezembro de 2005, ajuda a dar uma idéia da abrangência do problema em Bauru. Havia apenas 240 vagas disponíveis, mas o total de inscritos foi superior a 5.000 pessoas, segundo dados da entidade.
Conseguir um imóvel próprio, no entanto, não significa estar livre do pesadelo da falta de moradia. Os financiamentos são complicados e muitos mutuários não conseguem honrar os compromissos assumidos. No Sistema Nacional de Habitação, inadimplência é sinônimo de casa perdida. Só a Companhia de Habitação Popular (Cohab) de Bauru move, atualmente, cerca de 570 processos de reintegração de posse contra mutuários inadimplentes.
Enquanto algumas pessoas sentem falta de um lar, outras parecem não estar preocupadas em manter o imóvel conquistado. É quando as casas abandonadas passam a representar problema para a vizinhança ao redor.
Na rua 10 do Residencial Nova Bauru, uma construção vazia tem sido motivo de preocupação para a dona de casa Clotilde Galindo de Freitas, que vive numa residência próxima ao local.
Ela afirma que furtos são comuns na vizinhança e há menos de três meses ladrões pularam o muro dos fundos de sua residência. “Carregaram alimentos de um freezer que fica do lado de fora da casa”, lamenta.
Os bandidos teriam usado a construção vazia para atingirem o quintal da residência. Numa ocasião anterior, até um cartão de crédito do marido de Freitas foi levado.
Na Vila São Paulo, zona norte de Bauru, um imóvel desabitado tornou-se lar para um morador de rua. No lugar, localizado na quadra 11 da rua Gaudêncio Piollas, existe um sofá avariado, colchões velhos e cobertores rasgados, de propriedade do atual “morador”.
O terreno está repleto de mato, as janelas e portas arrombadas, os vidros quebrados e as paredes cheias de pichações. “Carregaram até uma porta de correr que havia na varanda”, conta um comerciante que vive e trabalha ao lado da casa abandonada.
Segundo ele, que preferiu não se identificar, há cerca de cinco anos a construção encontra-se nessa situação. “Os donos mudaram-se para outro lugar e deixaram tudo. Daqui uns tempos, nada vai restar”, acredita. A possibilidade de que moradores de rua e ladrões usem residências abandonadas como abrigo também preocupa a polícia.
De acordo com Flávio Jun Kitazume, comandante da 3.ª Companhia da Polícia Militar, o grande temor é de que esses imóveis transformem-se em esconderijo para bandidos. “Eventualmente, pode acontecer de que algum criminoso abrigue-se nesse tipo de local, para escapar da fiscalização”, ressalta.
A Caixa Econômica Federal, que financiou a construção do Residencial Nova Bauru, desconhece a existência de imóveis abandonados nesse e em outros conjuntos. Segundo a assessoria de imprensa da instituição, ainda que alguma construção possa estar desocupada, todas estão com as prestações em dia ou dentro do prazo de tolerância para atrasos, o que não configuraria uma situação de abandono.
Apesar dos momentos de pesadelo, como as dificuldades nos financiamentos e a insegurança provocada pelas casas desocupadas, a busca pelo lar desejado pode levar aos resultados almejados, superando-os em diversos casos.
Em muitos núcleos populares da cidade, as pequenas “casas de cohab” (modo como parte dos moradores costuma chamar as residências dos conjuntos habitacionais) vão cedendo espaço a sobrados e grandes casas com varanda.