09 de julho de 2026
Articulistas

Iguais na indignidade


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O americano Dee Hock, o homem que fundou a VISA, empresa que fatura vários trilhões de dólares por ano, teve uma origem humilde. Nasceu numa casa de tábua, em pequena propriedade agrícola no estado de Utah. Na adolescência fez os trabalhos agrícolas mais duros. Trabalhou em fábrica também. Fez um curso superior de dois anos e iniciou sua vida profissional numa agência financeira. Ingressando no National Bank of Commerce, teve o seu primeiro teste da crua realidade da vida de empregado, ao ser colocado como auxiliar de caixa de uma velha funcionária, que era educadíssima com os clientes e ríspida e mal educada com colegas.

No final do primeiro dia a funcionária disse que faltava um documento de depósito e por isso o caixa não fechava. Mandou-o ao porão para procurar o comprovante no lixo. No porão ele encontrou onze latões cheios de papéis, cinza e pontas de cigarro e restos de comida. Em princípio ficou indignado e disse alguns palavrões. Passada a raiva, raciocinou: “Será que alguém que remexe papéis num andar alto de um prédio luxuoso, numa mesa cara, numa sala grande, com uma placa dizendo ‘Presidente’, é uma forma de ser humano superior a alguém que remexe o lixo no porão? Por que queremos ser uma coisa e não outra?” Feito isso, tirou o paletó, arregaçou as mangas e passou a revirar o lixo à procura do comprovante. Depois de dez latões remexidos a ‘patroa’ desceu ao porão e disse que não era mais necessário, que ela já havia descoberto o engano. Ela fizera aquilo só para sacaneá-lo.

Sua carreia no banco continuou sendo encarregado de iniciar a implantação do cartão de crédito no estado de Washington. Com o sucesso, foi incumbido de estendê-lo pelos Estados Unidos e depois Europa e Oriente. Passou por situações difíceis, muitas delas decepcionantes. No confronto com grandes banqueiros acabou desenvolvendo um mantra para essas ocasiões. “Sempre que chego perto de alguém com mais riqueza, poder e posição, repito silenciosamente: sou tão grande para mim mesmo quanto você é para você mesmo; portanto, somos iguais. E quando procurado por pessoas de menor poder, riqueza ou posição, repito silenciosamente: você é tão grande para você mesmo quanto eu sou para mim mesmo; portanto, somos iguais.”

Iguais em dignidade. Assim são todas as criaturas de Deus que se fazem merecer pelo trabalho honrado, pelo respeito aos seus semelhantes, pela conduta correta na família e nos meios sociais, independentemente de ser rico ou pobre, patrão ou empregado, culto ou analfabeto, mas quando descambam pelo crime são todos iguais na indignidade. O banqueiro que trapaceou, que lavou dinheiro sujo, que fez operações fraudulentas, é tão indigno quanto o assaltante do banco. O juiz que vendeu sentenças ou que desviou verbas da construção do fórum é tão indigno quanto os bandidos que são submetidos ao seu julgamento. O parlamentar ou governante que desviou verbas em proveito próprio é tão indigno quanto o estelionatário vulgar. Por isso, quando uma pessoa que gozou do convívio da alta sociedade, que ocupou cargos de projeção, que morou em mansões, que possuía carros de luxo, iates e aviões, depois de julgada e condenada vem a ocupar as celas frias e desconfortáveis das prisões, junto com bandidos desclassificados, não deve ser visto com estranheza, mas como natural, porque em indignidade são iguais.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru