08 de julho de 2026
Geral

Agressão leva a abrigamento de idosos

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 3 min

Os atos de violência contra pessoas não são práticas que ocorrem exclusivamente nas ruas. Dentro de casa o problema também existe. Muitas vezes, com uma gravidade ainda maior que a dos casos atendidos pela polícia. O Centro de Registro e Atenção a Pessoas com Deficiência e Idosos (Cradi) de Bauru revela que recebe, toda semana, oito denúncias de agressões contra portadores de deficiência mental e a pessoas com mais de 70 anos. Por conta da reincidência das agressões, 20 pessoas já foram retiradas de suas casas nos últimos oito meses.

Das oito denúncias diárias, pelo menos seis têm procedência, segundo informa Mariza Helena Carvalho, assistente social que coordena o programa. Na maioria dos casos, as vítimas precisam ser retiradas do âmbito familiar porque correm risco de morte.

Apesar do trabalho de ressocialização das vítimas dentro da própria família, orientado por uma psicóloga do Cradi, as reincidências são constantes. De acordo com Carvalho, menos de 2% dos casos são resolvidos. Por conta disso, as pessoas que sofrem as agressões são levadas para abrigos assistenciais.

Já os idosos acamados em estado de abandono nem sempre são retirados de suas casas. O Cradi passa a assisti-los com o Serviço de Atendimento Domiciliar. Profissionais com noções básicas de enfermagem visitam a pessoa em casa para auxiliá-la na higiene pessoal, da casa e até para fazer companhia.

“Algumas denúncias exigem providências imediatas porque a vítima está sob risco de vida. Exemplo disso são os casos de filhos alcoólatras que agridem os pais. Também se encaixam nessa situação as famílias que se recusam a cuidar do filho que é deficiente mental”, destaca a assistente social. “São casos emergenciais. Por isso, temos que tirar a pessoa da casa imediatamente, porque se romperam os vínculos familiares; a situação chegou ao seu limite”, completa.

Carvalho afirma que o número de casos de maus-tratos registrados pelo Cradi já foi maior. Há três semanas, cerca de 15 denúncias eram recebidas pelo programa. Entretanto, apesar da violência, da negligência e do abandono que idosos e deficientes são submetidos, seja pelos pais ou pelos filhos, Carvalho entende que essas situações, na maioria das vezes, são resultados de desestrutura familiar e de dificuldades financeiras.

As denúncias, segundo a assistente social, são feitas através de telefonemas. Na maioria das vezes, conforme ela, as pessoas se identificam. São vizinhos e parentes das vítimas que mais se mobilizam. Enfermeiros de hospitais onde os idosos são abandonados pela família também engrossam a lista de denunciantes.

Martelo

Barras de metal, pedaços de madeira e até martelo são instrumentos utilizados pelos agressores. Segundo a assistente social Mariza Carvalho, o Cradi atendeu uma idosa que levou um murro do próprio filho. A investida foi tão forte que a mulher, de 67 anos, teve deslocamento de maxilar. Informações de vizinhos revelam que ela também sofre maus-tratos do marido.

Em outro caso, uma senhora de 82 anos levou uma martelada na cabeça. A agressão teria partido do filho. Conforme Carvalho, ela sofre de Mal de Azheimer.

Todos esses acontecimentos são encaminhados à polícia - no caso das mulheres, à Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) - mas nem sempre, conforme a assistente social, existem testemunhas para sustentar a denúncia das vítimas. Por outro lado, as pessoas agredidas, muitas vezes, não têm sanidade mental para fazer a reclamação.

Por medo de perseguição ou represálias, muitas pessoas hesitam em testemunhar a favor dos agredidos. A atitude é um dos principais fatores que permitem a reincidência das agressões, já que os responsáveis não são punidos. Entre os idosos, segundo ela, há casos em que o filho agride a mãe para obter dinheiro. Registros de auto-negligência do idoso também são constantes.

Carvalho conta que ontem atendeu uma portadora de deficiência mental que foi agredida na região dos olhos pelo próprio pai, um idoso que sofre de Mal de Azheimer. Ela teria levado um murro.

Entre os deficientes, o abandono é o principal problema. Conforme a assistente, existem em Bauru três que são moradores de rua e estão sem a assistência que necessitam.