Em época de Copa do Mundo, fala-se muito da seleção brasileira; discutem-se, com perda de tempo, os ‘calos’ e bolhas nos pés dos sofisticados jogadores; apontam-se, sem sobressaltos, os melhores para assumir a posição, ou quadrante, na partida (já se fala num ‘quadrado mágico’, do qual, na prática, não se sabe muito bem o que é); refere-se ao ‘toque’ magistral de bola, inusitado dos atletas, mesmo quando infrutífero para o desenrolar da jogada do companheiro de equipe. Tudo ocorre sob um patriotismo sôfrego, efêmero, equivocado e sem consistência. Contudo, mantém-se o ‘servilismo’ para com a ‘patente’ internacional! Três fatores, marcantes, fundamentam o dócil aconchego - de pessoas ilustres no futebol brasileiro - a padrões incompatíveis com a hercúlea tarefa de representar o Brasil.
O primeiro deles remonta ao período em que o País conquistou a Copa, em 2002: quem lembra as singelas palavras, recheadas de amor, proferidas pelo capitão do selecionado nacional, ao soerguer a comprida taça de vencedor? Em vez de enaltecer os colegas de profissão, pois labutaram para alcançar a vitória, e, sobretudo, os milhares de torcedores brasileiros, o experiente comandante da equipe preferiu dizer termos carinhosos à amada...! É possível que estivesse nervoso, naquele momento, e nem pensou muito no que falar; porém, o monumento, soerguido pelo profissional, pertencia aos brasileiros (e brasileiras, amadas ou não). Poderia ter dito algo melhor, naquele instante de euforia...
O segundo fator de incômodo aos brasileiros tem como palco a arena da Copa do Mundo, na Alemanha. O famoso ex-técnico da seleção brasileira, notável conhecedor dos meandros futebolísticos, precursor das melhores idéias a respeito do tema, conseguiu obter uma proeza: em seguida ao término da partida contra a ‘Croácia’ (desconhecido e insosso grupo de futebol), o ‘diretor técnico’ do Brasil, tencionando ‘trocar’ uma camisa ‘brasileira’, por outra vestida pelos jogadores do time vencido, sofreu, despercebido, sob os olhares impassíveis destes, um sonoro desprezo: as camisas acabaram sendo trocadas, mas de maneira frívola, depois de insistência do brasileiro. Teria sido mais frutífero, ao Brasil, se o ‘ex-técnico’ houvesse fincado sua verve para solucionar os graves e visíveis problemas que assolam o time nacional...
A causa derradeira de indignação decorre, paradoxalmente, de um ato de ‘felicidade’ para os brasileiros. Na Copa na Alemanha, no jogo contra a Austrália, quem não viu o ‘sofrido gol’ de um desconhecido atacante do Brasil, escalado no final da partida, para substituir o ‘maior (em peso) centroavante da seleção nos últimos tempos? Mas, terminado o jogo, o atleta, que fez o gol, apanhou a bola de futebol, colocou-a sob as axilas e procurou sair do recinto... Mas, espera aí! Aquela ‘coisa oval’ não lhe pertencia; o objeto dizia respeito a todos, ou, no último caso, aos organizadores do evento! Por que (raios) o jogador brasileiro desejaria levá-la consigo? Resultado: segundo os jornais, ele não pôde sair do estádio com aquele objeto esférico, que lhe proporcionou, momentaneamente, enlevo juvenil; retiveram a bola!
Esses fatos, na verdade, demonstram não apenas um trejeito para ‘resolver’ problemas (o insólito ‘jeitinho’ nacional); evidenciam, numa análise última - sobretudo quando há pendor à arte - o modo individualista do brasileiro, pouco afeito à causa pública, e o servilismo agonizante, em face de outros povos. É possível que alguns tenham percebido esses gestos pouco republicanos.
O autor, Heraldo Garcia Vitta, é professor de Direito e juiz federal em Bauru