08 de julho de 2026
Bairros

Ocupação pode ajudar a evitar o abandono

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Se a situação de boa parte dos centros comunitários em Bauru é precária, em diversos bairros a população esforça-se para vencer as dificuldades e preservar os locais de convivência. No Núcleo Geisel, aulas de ginástica e capoeira ajudam a superar o estado de abandono em que se encontra o espaço de convivência do bairro.

O local ficou sem uso, durante algum tempo, e ainda é considerado inativo pela Secretaria das Administrações Regionais de Bauru (Sear). “Retomamos as atividades há um ano. Fizemos pequenas reformas, mas ainda há muito o que arrumar”, conta Alan de Paula, presidente da associação dos moradores.

O abandono do local era grande, segundo os moradores. Hoje, as paredes estão pintadas, mas as janelas estão com os vidros quebrados. “Algumas crianças e pessoas que não têm o fazer ainda vêm aqui fazer vandalismo’, reclama Paulo César Ferreira, professor de capoeira, conhecido como “Mestre Amaral”.

Ele está iniciando um projeto gratuito com crianças do bairro que estudam em escola pública. “Além delas aprenderem a arte marcial, podemos ocupar este espaço com projetos que envolvam toda a comunidade. Talvez a vizinhança passe a ter mais respeito e as depredações parem”, acredita.

Cursos de geração de renda também são opções freqüentes quando se fala na utilização de centros comunitários. No Núcleo José Regino, as moradoras podem freqüentar aulas de crochê no espaço de convivência da bairro.

“Temos ‘umas’ oito alunas fixas. Elas já expõem seus trabalhos e muitas pessoas da região vão ao centro comunitário para comprarem as peças ali produzidas”, garante Eliza dos Santos, presidente da associação de moradores do núcleo.

Para Ana Costa, professora voluntária de corte e costura, a geração de renda não é a única vantagem desses cursos. “Eles ajudam a atrair a vizinhança para o centro comunitário, além de ensinarem algo útil ao dia-a-dia, como consertar uma roupa usada, por exemplo”, acredita. Costa aguarda os términos das obra do centro comunitário de seu bairro, o Jardim Godoy, para iniciar as aulas (leia mais no texto abaixo).

Além de cursos oferecidos pelas associações, os centros comunitários podem ter outras formas de uso. O espaço de convivência do Núcleo José Regino costuma funcionar como local de ensaio para grupos musicais da região.

“São conjuntos de rock, pagode, formados por meninos daqui da região. Se não pudessem usar o centro, não teriam como ir em frente, já que a vizinhança não permitiria que tocassem em casa”, pensa Eliza dos Santos, presidente da associação de moradores do bairro.

Integrar a população às atividades regulares é essencial para a sobrevivência dos espaços de convivência. “Se a população fica de fora da realidade dos centros comunitários, a tendência é que esses lugares sejam cada vez menos usados, perdendo seu sentido de existência”, argumenta Fabiana Lima, diretora do departamento social da Sear.

Nem sempre um centro sem cursos regulares para a população é sinônimo de desinteresse por parte da população em redor. No Beija-Flor, a associação de moradores do bairro não promoveu aulas no local de convivência, durante o primeiro semestre de 2006, mas ninguém tem reclamado.

“É que o espaço estava sendo ocupado pela creche que montamos. Como não havia um prédio definitivo para as crianças, usamos o centro”, explica Selma Celestino, presidente da entidade.

“Acredito que possamos oferecer cursos no segundo semestre deste ano”, espera ela. A creche já conta com prédio próprio e atende aos núcleos Beija-flor e Mary Dota. O projeto é mantido com recursos arrecadados com moradores da região.

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Talentos

No Núcleo José Regino a existência da área comunitária acabou sendo uma solução para a comunidade no lugar das desavenças entre moradores, lideranças populares de governantes, em muitas partes de Bauru.

“Os jovens músicos do núcleo não tinham onde tocar”, conta Eliza dos Santos, presidente da associação dos moradores. Problemas com vizinhos, que não toleravam do barulho dos ensaios das bandas locais, impediam que os novos talentos despontassem.

“O jeito foi oferecer o centro comunitário para que os meninos usassem”, conta ela. No princípio, a solução foi um tanto caseira, já que o primeiro grupo a ensaiar no local foi a banda Clarence Full Dead, cujo contrabaixista é o filho de Santos, Cláudio Carulo. O grupo toca ska core, gênero que une influências do reggae jamaicano aos acordes pesados do hardcore.

“A banda já existia, só que não tínhamos condições de nos reunirmos para tocar, pois os vizinhos reclamavam do nosso som”, conta. Como o grupo executava composições próprias, as reuniões semanais no centro foram essenciais para a qualidade do trabalho realizado, acredita Carulo.

“Só com os encontros o conjunto tinha como entender a idéia que cada membro queria passar”, completa. O grupo já gravou três CDs e já tem um local próprio, onde se reúne toda semana. Além da banda, grupos de pagode do José Regino também já usaram o centro comunitário do bairro para ensaiar.