10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Melhoria contínua: Cuidado com o verbo achar


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Certa vez, o empresário de uma indústria de médio porte da cidade de São José do Rio Preto me contratou para um serviço de consultoria. Seu problema: a produtividade da sua fábrica tinha caído sensivelmente, já há alguns meses.

Depois de averiguar em detalhes, percebi que a única mudança ocorrida foi a construção de uma sala para esse mesmo empreendedor. Antes disto, ele tinha uma mesa bem no meio da produção, de onde tinha contato com todos os setores, bem como uma visão mais ampla dos processos.

Imediatamente sugeri que abandonasse a sala nova e retornasse para a velha mesa. No ato ele me questionou o motivo, argumentando que em grandes grupos é impossível o principal executivo estar presente em todas as unidades.

Minha explicação: “Nesses casos, essas empresas investem maciçamente em automação, visando depender o mínimo possível de mão-de-obra, bem como utilizam muitos controles e auditorias. Mas, mesmo assim, os desperdícios são grandes. Isto é tão verdade que os presidentes dessas corporações seguem uma rotina disciplinada de visitas às suas unidades, com o objetivo de amenizar esse tipo de efeito. Um dos motivos principais: na cabeça dos funcionários, por mais que hajam sistemas quase perfeitos de remuneração, benefícios e motivação, se a cabeceira não aparece é traduzido como desinteresse. Como é sabido, o interesse libera uma energia motivacional ainda não conhecida totalmente pelas universidades”.

De uma forma incisiva, argumentei: “A lógica de que o gado só engorda na presença do proprietário, muito comentada na área pecuária, é verdadeira. A desconfiança deve prevalecer. Até agora não conheci alguém que consiga praticar os 10 Mandamentos continuamente. Se nós não somos confiáveis nem para o nosso Criador, imagine entre nós homens. Além do mais, alguns teólogos afirmam que cerca de dois terços da população da Terra ainda não têm elevação moral. Portanto, o mínimo do mínimo a ser feito é desconfiar”.

Me lembro muito bem quando trabalhei em uma grande usina de açúcar e álcool, cujo diretor manifestava abertamente ser contra a existência de salas, apesar de serem necessárias. Queria o comando quase o tempo todo no campo, acompanhando os detalhes. Era comum eu atravessar a madrugada acompanhando a manutenção quando o problema era grave.

Na época comentava-se muito sobre o Rubem Berta, da Varig, que passava o dia despachando no chão de serviço junto com o pessoal do operacional. Raramente era visto em sua sala, durante o expediente.

A maior parte das pessoas produz mais na presença do superior. Por outro lado, uma boa parte se acomoda na ausência da liderança. Ainda é muito cedo para acreditar em empresa com sistema de autogestão. Com as evoluções do moral e o do espiritual, talvez um dia.

Em face destas argumentações, esse empresário aceitou a sugestão. Voltou para a sua antiga mesa. A produtividade retornou ao patamar anterior. Lógico que cada caso é um caso. Algumas teorias são ótimas para discutir, mas no final o que manda mesmo é o resultado.

Há certas atividades que a tecnologia jamais substituirá: você estar presente de corpo e alma. Os sentidos humanos, juntos, constituem um sistema inteligente e organizado que avalia e processa os dados do meio ambiente de maneira inigualável. Não usá-los deixa de ser sensato na luta contra o famoso “acho”, que é um dos grandes vilões das organizações.

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Davison de Lucas