Estatísticas que provocam espanto. Trezentas mil mortes por ano no Brasil; 688 em Bauru em 2005. Mortes prematuras que chocam. Morre aos 43 anos o humorista Claudio Besserman Vianna, o Bussunda, do Casseta&Planeta Urgente. Projeção para o Brasil de gastos astronômicos nas próximas décadas. Esse cenário assustador tem como protagonista as doenças cardiovasculares ou, trocando em miúdos, os enfartes e derrames ou AVC (acidente vascular cerebral). As 688 pessoas que perderam a vida em Bauru em 2005 pela doença representam 34% das mortes na cidade no período.
Por causa disso, a prevenção de doenças cardiovasculares constitui o grande desafio para médicos, governo e sociedade para brecar a ascensão destes males que já se tornaram uma epidemia, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). O órgão estima que nos anos 90 foram registradas 14 milhões de mortes no mundo por enfarte e AVC e, em 2020, serão 25 milhões de mortes. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em pesquisa recente sobre fatores de risco cardiovasculares intitulada Projeto Corações Brasileiros, também encontrou números e índices assustadores.
De acordo com a pesquisa, 13% da população fazem uso diário de bebida alcoólica a maior incidência é na região Sudeste; 83% dos brasileiros são sedentários; 25% fumam e 14% apresentaram níveis de triglicérides acima do normal. Estão aí os números que comprovam outro índice igualmente espantoso: 300 mil mortes por ano de brasileiros por doenças cardiovasculares.
Bauru acompanha o cenário nacional. Em 2005, de acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde, 34% do total de mortes no município ocorreram em decorrência de doenças cardiovasculares, o que corresponde a 688 óbitos. O enfarte está no topo da lista.
Mas nem os números e muito menos a perplexidade e a indignação diante de notícias como estas, que estão na mídia com freqüência, parecem efêmeras e sem poder de transformação de hábitos lesivos ao coração. Divulgam-se os sintomas, os fatores de risco, os números de mortes, mas não se consegue convencer a população a cuidar do coração.
A quem estes números não impactam? Quem não sabe que obesidade, cigarro, sedentarismo, diabetes, hipertensão, colesterol e triglicérides alto são as principais causas de enfartes e derrames prematuros, ou seja, antes dos 55 anos para homens e dos 65 anos para mulheres? Então, por que as pessoas não aderem aos tratamentos nos casos de hipertensão, por exemplo? Ou não adotam hábitos saudáveis, que constituem o tratamento não medicamentoso e preventivo?
Um exemplo ilustrativo desta realidade, evocando mais uma vez os números: nos Estados Unidos, a aderência ao tratamento da hipertensão arterial, um dos fatores de risco de doenças do coração, é de apenas 25%. No Reino Unido, apenas 18% da população que sofre de hipertensão adere ao tratamento. No mundo, são 800 milhões de hipertensos, segundo dados da SBC. Em Bauru, 40% a 50% dos atendimentos em unidades básicas de saúde são de pessoas com fatores de risco cardiovasculares: hipertensão, diabetes.
Ainda de acordo com a pesquisa realizada pela SBC, independente dos avanços tecnológicos na medicina, não será a cura, mas a prevenção que irá reduzir as mortes e invalidezes por doenças do coração. Para isto é preciso convencer a população a adotar uma alimentação balanceada desde a infância, a praticar exercícios, a evitar o estresse e a fazer exames preventivos.
Na opinião de alguns especialistas, a dificuldade da prevenção está no fato de passar pela cultura individual das pessoas; para outros, é preciso resgatar a relação entre médico e paciente e investir em políticas públicas que promovam a prevenção dentro das unidades básicas de saúde. E para aqueles que sofrem prematuramente um enfarte? Como é modificar hábitos cultivados durante anos? E os que chegam a uma idade avançada sem nenhum problema do coração, o que os motivou a cuidar de sua saúde?
Vera Moura sofreu um enfarte aos 47 anos. Não desconfiou que a dor no braço era um sinal de que o coração não estava mais agüentando. Depois de recuperada, demorou mais de um ano para inserir em sua rotina o hábito de caminhar. Ataliba Bueno, 75 anos, há 20 anos faz exercícios em uma academia. Não sabe o que é pressão alta, nem colesterol fora das taxas de normalidade. A história deles ilustra um pouco dos caminhos percorridos para vencer o desafio da prevenção de doenças cardíacas.