09 de julho de 2026
Nacional

Candidato, Lula vira ‘pai dos pobres’

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 60 anos, lançou ontem oficialmente sua candidatura à reeleição com um discurso no qual comparou números de seu governo com a era FHC, atacou a oposição, se apresentou como um “pai dos pobres” vítima de preconceitos e calúnias, e isentou-se de responsabilidades pelo escândalo do "mensalão". Por fim, prometeu colocar a educação como a prioridade zero de um segundo mandato.

“Aceitei, mais uma vez, o chamamento, o chamamento que vem de vocês, mas que vem, também, do fundo do meu coração. Decidi submeter meu nome e meu governo, humildemente, ao julgamento dos meus irmãos brasileiros. Hoje estou aqui para anunciar que sou, mais uma vez, candidato à Presidência da República. E mais uma vez me acompanha nesta jornada o meu querido companheiro José Alencar”.

A convenção nacional do PT começou por volta do meio-dia, com a presença de petistas e aliados. Estavam lá José Sarney e Renan Calheiros (PMDB), Eduardo Campos (PSB), Aldo Rebelo e Renato Rabelo (PC do B), Flávio Martinez (PTB) e Vitor Paulo (PRB). Lula entrou no local ao som do novo jingle de campanha e do antigo jingle (olê-olê-olê-olá, Lula, Lula), e começou a discursar às 13h25.

Antes de entrar, foi anunciado o nome de candidatos de vários Estados, do PT e de outras siglas, que estavam na convenção. Alguns deles foram vaiados, como o senador petista Delcídio Amaral, que presidiu a CPI dos Correios e disputará o governo de Mato Grosso do Sul; o ex-presidente do STJ Edson Vidigal, que concorrerá ao governo do Maranhão pelo PSB; e o governador do Amazonas, Eduardo Braga, que tentará a reeleição pelo PMDB.

O discurso foi pontuado por frases na qual Lula apontou dificuldades que teriam advindo por ser um “trabalhador”. “Vocês sabem quanto custou a cada um de nós chegar até aqui. Quanta batalha foi preciso vencer, quanto preconceito foi preciso remover, quanta armadilha foi preciso desmontar.”

Houve duas vertentes usadas. Numa, citou ter frustrado apenas os que esperavam mudanças rápidas ou os que “torciam” para “dar errado”. “Me sinto ainda mais maduro e preparado, pois aprendi bastante nos últimos anos, muitas vezes com sofrimento e injustiças”. Noutra, citou perseguição ao falar sobre a crise do "mensalão": “Os que me atacaram injustamente e tentaram me destruir se esqueceram que em toda a minha história eu convivi, da forma mais democrática possível, com a divergência”.

Ainda assim, ele disse não pretender “posar de vítima ou de herói”. “Se com a inexperiência que tínhamos, e com a tormenta que enfrentamos, conseguimos recuperar o Brasil, imaginem o que não poderemos fazer num segundo governo, com mais experiência e com pleno conhecimento da máquina?” Lula defendeu sua gestão: “Recolocamos o Brasil nos trilhos”.

Política econômica

Ao mesmo tempo em que apresentou vários números sobre sua gestão econômica (“Conseguimos recuperar uma economia que encontramos profundamente fragilizada”), política externa (“O Brasil é hoje uma nação respeitada”), infra-estrutura e energia (“Abrimos as portas do Brasil para o século 21”), Lula comparou seu governo com os oito anos de Fernando Henrique Cardoso. A ênfase foi a comparação econômica: saldo comercial favorável, melhora do perfil da dívida externa, queda do desemprego, maior renda, aumento real no mínimo e programas de microcrédito.

“Pensam que o povo esqueceu o que eles fizeram com o nosso País.” E chamou a oposição de “voz do atraso”. “Hoje, as vozes do atraso estão de volta. E como não têm uma boa obra no passado e nem propostas para o futuro, fazem da agressão e da calúnia suas principais armas.” Chamou a onda de privatizações da era FHC de “sanha privatista que dilapidou o patrimônio público”. Foi particularmente sensível na questão dos juros altos. “Eles prometem, agora, baixar os juros da noite para o dia. Mas no governo deles, a taxa Selic chegou a alcançar um pico de 85% ao ano. Não estou satisfeito com a taxa de juros praticada no país, mas já conseguimos baixá-la e criamos condições para que ela continue diminuindo”.

Pai dos pobres

Assumiu a face de “pai dos pobres” que vem desenhando nos últimos meses. Negou que a economia seja uma prioridade em si: “Nosso objetivo nunca foi alcançar apenas o superávit, mas sim uma meta mais difícil, o superávit social”. Defendeu o Bolsa-Família, dizendo que o governo não “dá esmola”.

Para “humanizar” discurso, a campanha petista convidou uma pessoa atendida pelo programa Luz Para Todos, outra pelo ProUni, um por programa de agricultura familiar, outro por microcrédito, um por programa de habitação popular e uma vítima atendida por ambulâncias do programa Samu.

Lula as apresentou pelo nome e aproveitou para falar das áreas específicas. Falou muito sobre a tecnologia do biodiesel, sua “menina dos olhos” na área energética, mas obviamente nada sobre a crise do gás com a Bolívia. Citou o que considera seus feitos na área de segurança, especialmente sensível após a crise do PCC em São Paulo.

Sobre prioridades para o próximo governo, se eleito, disse focar em educação. “Mas se tivesse de destacar uma só área de prioridade máxima, eu citaria a educação”. No campo ético, disse que o problema brasileiro é o seu sistema político. Falando a militantes, foi breve ao abordar o "mensalão". “Nunca enfrentamos uma crise como a que se abateu sobre nós. A oposição aproveitou-se de algumas condutas equivocadas para generalizar culpas e tentar destruir o partido mais autenticamente popular do Brasil.”