08 de julho de 2026
Ser

Técnicas de ‘desapaixonamento’

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Fora, pé-na-bunda, fim de linha, cartão-vermelho, ser dispensado ou descartado. As expressões são muitas, mas o término de relacionamento é uma experiência única e que já fez ou fará parte do currículo amoroso da maior parte da população. Alguns mais, outros menos doloridos, o fato é que levar um fora do namorado, marido ou amante nunca é bom. Isso porque suas conseqüências abalam a estrutura emocional e em grande parte das vezes vêm acompanhadas de sofrimento, baixa auto-estima ou sentimentos de rejeição.

Mas, se a dor é inevitável, o consolo é saber que existem muitas formas para não sucumbir e superá-la, aponta o psicólogo clínico mineiro Ailton Amélio, que acumula mais de 30 anos de experiência na área. Especialista em comportamento amoroso, ele é professor do departamento de psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor das obras “Para Viver um Grande Amor” e “Mapa do Amor” (Editora Gente).

Durante entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade, Ailton mostra que, apesar de ser doloroso, levar um fora não é sinônimo de desespero e, com algumas estratégias, é possível sobreviver à tragédia amorosa e resgatar o auto-estima. Confira, entre outros temas, alguma táticas de “desapaixonamento” sugeridas pelo especialista.

Jornal da Cidade – Grande parte das pessoas já levou um fora. Esta é uma das experiências mais traumáticas passadas pelas pesoas?

Ailton Amélio - Acho que todos já levaram um fora. É a experiência mais traumática, não quando se trata do começo da relação, mas principalmente quando se está envolvido no relacionamento há muito tempo e existe um entrosamento maior e projetos juntos.

JC –A pessoa percebe que vai ser dispensada?

Ailton – Sim, dá para perceber. Na maioria das vezes o outro dá sinais de insatisfação, mostra que está infeliz, perde o interesse, pode haver diminuição da sexualidade ou afetividade. Há muitos sinais, a não ser que o fato ocorra de forma repentina, mas isso é exceção.

JC - Por que o fora causa tanto sofrimento?

Ailton – Quanto mais laços a pessoa tiver com o outro, quanto maior o comprometimento, envolvimento e amor, maior será o sofrimento porque a experiência pode ser grave. A pessoa pode perder programas, projetos futuros e ter sua auto-estima abalada. A vida dela pode se tornar um grande vazio porque é muito doloroso se o apego e amor pelo outro não forem correspondidos.

JC – A dor provocada pelo término do relacionamento pode ser comparada àquela causada pela morte de um ente querido?

Ailton - Alguns já disseram que o término de um casamento bem estruturado pode ser comparado à morte de um filho, já que, em alguns casos, as conseqüências são violentas.

JC - Após um fora da pessoa amada, quais são as reações mais comuns?

Ailton – Há pessoas que ficam deprimidas. A tristeza, o desânimo, a desmotivação e a dor são reações naturais. Se a pessoa não as têm pode haver algo errado. Quando se trata de laços e envolvimento, as reações são naturais, mas se elas perduram aí é preocupante.

JC - Quem sofre mais: homens ou mulheres? Por quê?

Ailton – Os dois sofrem bastante. Os homens sofrem muito porque são mais calados. Eles são educados para não expor seus sentimentos e não falar muito sobre isso. No meu consultório os homens se desesperam, muitos me “bipam” o tempo todo. É bem traumático o sofrimento para homens e mulheres, mas é difícil saber exatamente quem sofre mais. A diferença se dá mais em relação à expressão e à manifestação do sofrimento.

JC – E as mulheres, como reagem?

Ailton – Elas são mais sensíveis, conversam, falam o que sentem, recorrem às amigas. Elas se permitem sofrer e deixar que os outros as vejam sofrer. É diferente dos homens, que escondem mais seus sentimentos.

JC – Quando é aconselhável ajuda profissional?

Ailton – A pessoa pode recorrer a um tratamento quando as reações perduram. Já tratei no meu consultório pessoas que estavam deprimidas há seis meses, perderam emprego, ano escolar ou que não se interessavam por mais ninguém. São coisas difíceis e, se elas estão durando por muito tempo, é preciso procurar ajuda.

JC – Em geral, como sobreviver a um fora?

Ailton – A pessoa pode apressar esse período. Criei um tratamento desapaixonamento para isso.

JC – Em que ele se baseia?

Ailton - Sugiro que após esse término de relacionamento o indivíduo tente avaliar o quanto representa a perda do outro e a perda de sua própria identidade. É preciso refletir também sobre a perda da auto-estima, de objetivos que a pessoa tinha com a outra ou a perda do companheiro de programas porque existem pessoas que fazem tudo com o parceiro e muitas delas, inclusive, não cultivam relações sociais. E tudo isso precisa ser trabalhado. A pessoa deve tentar recuperar todos esses aspectos o mais rápido possível.

JC - Como superar a dor-de-cotovelo? Existem técnicas para isso?

Ailton – É preciso forçar um pouco, não demais porque se a pessoa fizer somente o que não quer acaba não fazendo nada. A pessoa tem que procurar sair, se possível. Deve tomar a iniciativa de procurar amigos, fazer programas e trabalhar sua auto-estima, porque na maioria das vezes a pessoa que leva o fora se sente rejeitada.

JC – E como colocar essas táticas de “desapaixonamento” em prática?

Ailton – Quando se trata de “desapaixonar”, falar é fácil, fazer é mais complicado. Não se trata de técnicas para estudar ou emagrecer, às vezes é preciso ajuda profissional. Mas “desapaixonar” é deixar de idealizar o outro e perder as esperanças de retomar o relacionamento. São duas evidências para que a pessoa não se mantenha apaixonada. E há procedimentos para isso porque quem ama vê a pessoa amada melhor do que até os amigos do companheiro vêem. E boa parte do que o ser humano imagina em relação ao outro normalmente é idealização.

JC – É uma projeção, a pessoa enxerga no outro apenas o que deseja ver?

Ailton – É a idealização do outro. Chamo isso de cristalização. Vou citar como exemplo a história de um galo que um dia foi cristalizado pelo sal das minas da França, se tornando uma jóia encrostada de diamantes. O fato é que ele era apenas um galinho com sal, mas a pessoa o enxergava como um diamante ou objeto inigualável. Isto é idealização.

JC – De que forma perder as esperanças pode ajudar a superar um fora?

Ailton - A esperança é outro pilar do desapaixonamento. Se a pessoa tem noção de que o outro não gosta mais dela, embora ela ainda esteja gostando, a dor é aguda, porém mais breve. É preciso trabalhar isso.

JC - E o que fazer quando a pessoa que foi dispensada tem esperanças de retomar a relação?

Ailton - Se existe esperança, a pessoa precisa ver se o sentimento é genuíno. Muitas vezes a esperança é verdadeira e tem base. Quando isso não ocorre, é preciso perdê-la o mais rapidamente.

JC - Depois de um fora, diversas pessoas engatam ou começam um novo relacionamento. Isto é aconselhável?

Ailton – Não, porque a pessoa não está pronta. Ela não será criteriosa, está desequilibrada e aí geralmente corre riscos ao entrar em um relacionamento. Isso pode até apressar o desapaixonamento. É um remédio, mas que possui efeitos colaterais. Se administrado de forma errada, o remédio pode matar mais do que a doença. Encontrar outra pessoa pode ajudar e abreviar o sofrimento anterior se a pessoa realmente conseguir se envolver com outra. Caso isso não ocorra, acredito que ela está substituindo um mal pelo outro.

JC - Se desfazer de presentes ou objetos que lembrem o ex ajuda?

Ailton –Tudo o que lembra o outro ajuda a prolongar esse sofrimento. Quando a pessoa trabalha junto com o outro, se encontram na academia de ginástica, se vêem todos os dias ou têm o mesmo círculo de amigos é torturante.

JC – É importante manter distância?

Ailton – É bom para não prolongar o sofrimento, principalmente para a pessoa que foi abandonada. É uma tortura constante e muitas vezes prolonga o sofrimento.

JC – O que é pior: dar ou levar um fora?

Ailton – Certamente levar um fora. Embora algumas pessoas sofram quando a relação acaba por iniciativa própria, quem foi dispensado tem problemas com a auto-estima. Ele pode pensar em por que não foi suficiente, por que não despertou o amor ou o que fez de errado. Esta parte é mais pesada. E geralmente quem dá o fora não está mais amando tanto ou já está envolvido com outra pessoa.

JC - Como resgatar a auto-estima?

Ailton – Na maioria das vezes não é preciso terapia. A pessoa vai fantasiar que não tem qualidades, que foi rejeitada ou que ninguém vai querê-la. Tudo isso é uma distorção e ela precisa combater esses pensamentos. A pessoa deve ressaltar suas qualidades e seus pontos fortes. É fundamental a pessoa saber que quando o outro não a quer é uma questão de gosto pessoal, o que não significa que ela não é boa. Este é o ponto que ela deve firmar.

JC - Qual é a melhor forma de administrar o baixo astral? Apostar no humor ou rir da própria situação ajuda?

Ailton – Ajuda porque quem tem humor tem consciência do que está acontecendo, o que contribui para elaborar o processo. Quem não tem humor está encarando a situação muito seriamente. O fato de ter humor ajuda a diminuir o sofrimento e manter distância do problema.

JC - Muitos dizem que só aprendem com o sofrimento. Qual é a principal lição do fora?

Ailton – Muitas pessoas não aprendem. Às vezes, depois de dois ou três foras, o indivíduo pode agravar o problema ou continuar confirmando que não tem qualidades. Mas a pessoa pode aprender coisas certas, avaliando porque não deu certo no relacionamento anterior e aprendendo com os relacionamentos.

JC – O senhor trata desse tema em alguma obra?

Ailton – No livro “Para Viver um Grande Amor” eu abordo aspectos para não levar um fora (risos).

JC – É uma espécie de tratamento ‘antifora’?

Ailton – É mais do que isso. Serve para que o relacionamento dê certo e dure porque, antes de levar um fora, o bom é fazer um tratamento preventivo.

JC – De que forma?

Ailton – É uma maneira de se relacionar que envolve diversos fatores. Em primeiro lugar, a pessoa deve escolher bem seu parceiro e procurar mais benefícios do que custos na relação. É ideal investir no relacionamento, pensar a longo prazo, ter filhos e fazer planos. Mas existem ainda os fatores sociais e que estão fora do alcance das pessoas envolvidas no relacionamento, como opinião pública, legislação e o fato da mulher estar agora profissionalmente se firmando tanto quanto o homem, o que pode contribuir para as separações.