09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Política urbana e meio ambiente


| Tempo de leitura: 4 min

O espaço da cidade nunca foi tão discutido como agora. Haja visto os grandes problemas que o poder público e a sociedade como um todo têm enfrentado. Os desequilíbrios ambientais no meio urbano estão relacionados às políticas públicas e ao modelo de planejamento implantado na cidade.

Bauru conta hoje com mais de 350 mil habitantes e vários são os processos de degradação sócio-ambiental nas áreas urbanas, especificamente nos fundos de vale, onde atravessam os córregos da cidade, de fundamental importância para o equilíbrio físico da paisagem e do meio social.

O crescimento da cidade, sem considerar o aspecto natural, tem influenciado nas condições da qualidade de vida da sociedade como um todo, porém, mais acentuadamente nas camadas mais pobres da população, além de pôr em risco as funções ecológicas dos córregos e rios na cidade de Bauru.

Os fundos de vale são considerados áreas de proteção permanente, ou seja, de vital importância para o equilíbrio dos ecossistemas urbanos. São áreas de mananciais (que contêm água como recurso para a sociedade) e deveriam ser cuidadas como prioridades. Uma das funções dos fundos de vale é o conforto térmico da cidade, fazendo com que a temperatura do lugar seja amenizada, controlando o regime das chuvas, reduzindo o excesso da pluviosidade, diminuindo os ruídos ocasionados pela poluição sonora no ambiente urbano decorrente dos automóveis, ônibus, caminhões, motos, carros de polícia, ambulâncias e Corpo de Bombeiros.

No entanto, não são somente estas as suas funções. Cabe ainda destacar a sua importância na paisagem urbana, seja ela de manter a própria beleza cênica do lugar, com vários tipos de vegetação e espécies arbóreas diferenciadas, evitando a erosão e o assoreamento do solo, mantendo a umidade do lugar, mas também de se evitar a degradação sócio-ambiental. Neste caso, o problema maior está nas edificações insalubres, através da formação de favelas e casas sem a mínima condição de infra-estrutura urbana como água tratada, pavimentação asfáltica e coleta de lixo adequada.

As autoridades de Bauru têm se esforçado para melhorar o ambiente da cidade. Têm debatido com a sociedade técnicos em planejamento urbano, Secretaria do Meio Ambiente e organizações não-governamentais para angariar idéias que poderiam ser colocadas junto ao novo Plano Diretor da cidade.

Porém, o Plano Diretor por si só não é instrumento para a transformação da cidade, mas são as políticas que se faz, com base em suas leis, que deveriam amenizar os problemas de natureza sócio-ambiental.

Ao se discutir o gerenciamento da cidade de Bauru via Plano Diretor tem sido proposto, apesar dos esforços, com a permanência da visão técnica e instrumental. Isto quer dizer que os desequilíbrios ambientais não serão resolvidos apenas com a construção de pontes, canalizações de córregos e delimitação de novas áreas de crescimento urbano.

A questão da destruição física da paisagem urbana e das condições precárias em que vive grande parte da população de Bauru merece ser discutida não somente através de leis que regulam o município, mas da compreensão das relações conflitivas dos diferentes interesses no uso e ocupação do espaço da cidade, além do aprofundamento do funcionamento dos ecossistemas urbanos.

A busca da sustentabilidade da cidade é sempre colocada como prioridade entre os políticos e o poder público da cidade. No entanto, tal fato ocorre apenas como discurso, pois não se tem uma visão integrada das relações entre o ambiente físico e o social, mas se utilizam da sua ideologia em busca da preservação e conservação do meio ambiente.

Como ser sustentável sem considerar as leis da termodinâmica na física? Tal fato requer entender que a ecologia do ambiente urbano não é uma questão técnica, mas social e humana, devendo ser pensada na sua totalidade através de outras ciências como a antropologia, a biologia, a geografia, a sociologia, a filosofia, entre outras.

Como resultado destas políticas se tem uma cidade (in)sustentável, que esconde os seus problemas, apenas maquiando os lugares insalubres que, de uma certa maneira, produzem a degradação da cidade como um todo e comprometem o seu futuro.

A situação dos fundos de vale de Bauru hoje é resultado do não-cumprimento das leis ambientais do município e em específico do próprio Plano Diretor de desenvolvimento de Bauru. Os problemas têm sido agravados tanto do ponto de vista físico-natural, com o aumento da destruição da vegetação, erosões e assoreamentos, colocando em risco as funções ecológicas das áreas de fundo de vale, quanto do ponto de vista social, já que pessoas moram em ambientes degradados, próximo aos lixos urbanos, à água contaminada e convivem em locais sem infra-estrutura mínima.

O uso de políticas técnica-instrumentais não tem considerado os estudos de impactos causados ao meio urbano, promovendo a perda não somente da biodiversidade do ambiente natural, mas desconsiderando a cidade como um organismo vivo e dinâmico, transformando-a apenas num lugar morto, sem vida, sem água, sem beleza, sem lazer e sem atrativos nos fins de semana.

Para amenizar tais impactos no ecossistema urbano, deve-se primeiro ultrapassar a visão instrumental que por um lado se fecha em si mesma, mas ao contrário, deveria utilizar-se de outras especialidades para realmente propor uma alternativa que considere o ambiente como um todo, e não com ações fragmentadas e paliativas.

Valter Luís Barbosa