O vice-prefeito e presidente da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), Renato Purini (PMDB), confirmou ontem em depoimento ao Ministério Público (MP) que manteve encontro em São Paulo, em agosto de 2004, com representante de uma empreiteira cearense, quando um dos assuntos tratados foi uma possível doação em dinheiro à campanha eleitoral da época. O vice de Tuga Angerami (sem partido) também reconheceu, pela primeira vez, que será difícil sua permanência na Emdurb, embora não tenha antecipado se sua estratégia será forçar o chefe do Executivo a demiti-lo ou se pode decidir por pedido de exoneração para “facilitar” a medida, ajudando assim a despressurizar a crise que afeta o governo envolvendo suposto caixa 2.
Em seu depoimento ao promotor de Cidadania e Patrimônio Público, Fernando Masseli Helene, Purini não negou a tratativa com representante da empreiteira Marquise, mas aderiu ao estilo do presidente Lula (PT) de buscar evasivas com o famoso “não sei de nada”. Porém, as declarações ao MP deixam claro que a estratégia do vice foi, na verdade, de tentar evitar, no mínimo, que o conteúdo de suas afirmações levasse a novas pistas sobre a apuração do caso.
Incomodado e nervoso, Renato Purini procurou não fornecer dados que possam permitir que suas afirmações à Promotoria sejam confrontadas com outros fatos. Ele tomou evidente cuidado ao tentar limitar a negociação de suposta doação à campanha eleitoral de 2004 a um “contato”.
Para isso, o vice-prefeito, o mesmo que “coincidentemente” escolheu a empreiteira para contrato de emergência no início do atual mandato, em janeiro de 2005, escolheu o caminho da falta de memória em seu depoimento. Ao promotor, Purini sequer mencionou que o suposto encontro com vistas a discutir eventual contribuição à campanha eleitoral ocorreu em agosto de 2004, conforme havia antecipado ao JC. Este dado foi levantado pela reportagem em entrevista com o vice-prefeito logo após o depoimento de ontem.
À Promotoria, ele preferiu mencionar que houve encontro, com a presença de Tuga, em São Paulo, com representante de uma empresa do Ceará, “que não sei o nome”. Segundo ele, a viagem à Capital do Estado foi realizada para cuidar de outros compromissos, mas teria sido aproveitada para ouvir o representante oculto da empreiteira “em reunião que ocorreu em frente à produtora do Chico” (que Tuga revelou ser o publicitário Chico Baiano).
Questionado sobre o intermediário que revelou ter acompanhado a reunião dele com Tuga, na época, Purini afirmou: “O Celso não me recordo se estava na reunião”. Ele voltou a dizer que a suposta contribuição não prosperou.
Sem memória
Mas a modificação sutil na descrição do suposto encontro, onde se discutiu eventual caixa 2, é que Purini disse ontem que foi a São Paulo, na oportunidade, em seu próprio veículo e acompanhado apenas de Tuga, excluindo o ex-diretor de Limpeza Pública da Emdurb Jorge Monteiro, autor das denúncias ao JC. Monteiro não só revelou este encontro para tratar de suposto caixa 2 da campanha como mencionou ter participado da reunião e de outras tratativas, desmentindo-as a seguir. A revelação feita ao JC ocorreu na presença do próprio Purini.
Outra estratégia do vice em seu depoimento foi o de manter o representante da Marquise, Ivan Valente Benevides, de fora da negociação. Segundo Purini, o contato com o empresário somente ocorreu em 2005, mas já quando a mesma Marquise fora contatada para prestar o serviço de coleta de lixo por emergência, decreto que não foi executado por pressão da opinião pública, na época.
Purini admitiu que a pressão vinda do Legislativo e o fato da crise ter nascido a partir de declaração de homem até então de sua confiança na Emdurb, Jorge Monteiro, o colocam em situação cada vez mais difícil junto ao governo.
Para o promotor Fernando Masseli, a postura comedida de Purini diante de seu depoimento não surpreende. “Não surpreende o vice-prefeito não prestar informações sobre a data do encontro e o nome dos participantes, com exceção da presença de Tuga, porque ele exerce o direito constitucional de defesa. Ele não tem interesse em que a investigação desvende este caso”, resumiu Masseli.