Nossa história de hoje não é um simples causo de pescador, pois nela não há aumento nem invento e ainda pretendemos com ela dar um alerta aos navegantes e pescadores errantes.
Quem ainda não viu pirangueiro sair para pescar com mau tempo, às vezes à noite, sem atentar para os detalhes mínimos de segurança e ainda sem avisar ninguém para onde vai?
Eu e o meu companheiro de muitas pescarias, Diocélio Domingues, fazíamos tudo isso e ainda nos vangloriávamos dizendo que era uma questão de experiência, de coragem ou sinônimo de alta quilometragem em pescarias.
Estávamos com todo esse excesso de confiança num certo dia, por volta das 8h da manhã, quando iniciávamos os 15 quilômetros que nos separavam do lado matogrossense, onde pretendíamos pescar, mais precisamente no rio Santa Rosa. Naquele momento chovia muito nas imediações de Presidente Epitácio, a cidade mais próxima.
Nós acertamos o tempo com relação à chuva, mas erramos no tempo com relação ao vento e esse erro quase nos foi fatal. E ainda havia outros erros...
Nossos coletes salva-vidas estavam no estado do bote, a nossa carga não estava distribuída para enfrentar ventos, um amigo nosso, também pescador, dissera que não atravessássemos naquela hora e os pescadores profissionais saiam do rio enquanto nós estávamos entrando...
Quando estávamos bem no meio do rio, que também compreende o alagado da hidrelétrica de Porto Primavera, bateu um vento-sul, conforme dizem por lá, o nosso barco não resistiu e enquanto ele afundava também bufava, assobiava, jogava espuma pelos lados, esvaziando todo o ar existente dentro dos seus compartimentos. Também virou com a quilha para cima, ficando somente com a proa fora d’água, onde nos agarramos como última salvaguarda, pois estávamos sem os coletes.
Os flutuantes puxavam o barco para a tona, mas o motor muito pesado puxava tudo de volta para baixo, levando-nos juntos agarrados às suas hastes, ficando nesse desce e sobe durante as quatro horas que durou aquele vendaval.
Já era meio-dia quando o vento diminuiu e nós abandonamos nosso barco e agarramos nuns galhos secos de árvores existentes no alagado e ali combinamos de segurar e eu ficaria para trás, aguardando o seu retorno ou teria de nadar sem colete pelo restante do alagado que faltava. Pretendíamos que o amigo buscasse socorro em uma fazenda existente a cerca de 6 quilômetros mais acima.
Logo na saída eu não vi mais o meu companheiro, que desapareceu no meio da névoa úmida que se formava com os ventos, deixando-me preocupado, pois eu não sabia se conseguira ou não o intento desejado, se voltaria ou não com socorro.
Esperei até o meio da tarde, quando resolvi sair, pois não poderia permanecer naquele lugar por muito tempo sem comida, com muito frio, na certa morreria de hipotermia ou hipoglicemia. Não fui muito longe e num ponto que não consegui alcançar um galho seco, eu me perdi tentando retornar, enquanto vi que eu nadava abaixo da linha d’água e também via as bolhas de ar que saíam da boca, dando lugar para a água que entrava. Eu estava perdido.
O Diocélio também passava por maus momentos, mesmo com colete, pois quando desejava segurar numa árvore, não alcançava e, quando a alcançava, a mesma tinha espinhos e ainda a correnteza e os ventos o arrastavam para lugar desconhecido.
Quando ele estava perto da margem, era arremessado de volta para o alagado pelas forças das correntezas.
Mas eu ainda estava a alguns quilômetros para trás e vendo que a natureza era muito mais forte do que eu, então me lembrei que Deus é muito mais forte do que ela. Fazia um tempão que eu não falava com Ele e vi que estava passando da hora, talvez nem se lembrasse mais de mim. Naquele momento de angústia eu orei, dizendo mais ou menos assim: “Meu Deus, sem a Tua ajuda eu vou morrer agora, pois, além de Ti, ninguém sabe onde eu estou ou como estou”.
Naquele momento, um galho me segurou e por ele eu saí daquele apuro extremo.
Enquanto tudo aquilo se passava comigo, o Diocélio, que também não era muito chegado em oração, resolveu ele também fazer a sua. Segundo ele me disse, foi mais ou menos assim: “Ó Deus, já que permites que eu vá para lugares estranhos à minha vontade, faça que no lugar onde eu for pela Tua vontade, haja ali socorro para mim e para o meu amigo”.
Eram 5 horas da tarde daquele mesmo dia quando um pescador profissional procurava equipamentos perdidos durante o temporal e, encontrando-os, encontrou também o Diocélio já na margem matogrossense, porém sem forças para subir o barranco e procurar socorro.
Portanto, ficamos os dois durante nove horas dentro d’água em situações e mais situações muito acima do nosso limite, por isso tiramos deste relato algumas lições que já pusemos em prática e até algumas sugestões para as nossas autoridades:
- Nunca mais navegar em qualquer rio sem o colete salva-vidas;
- Pescar sempre na companhia de pessoa que conheça bem o lugar;
- Avisar sempre a alguém sobre o seu destino, sobre o horário provável da volta e, se possível, levar sempre um celular;
- Sugerir à Marinha e à Polícia Ambiental no sentido de que as mesmas ajam como quando em policiamento de trânsito, multando pela falta do colete salva-vidas da mesma forma que multam pela falta do cinto de segurança;
- E, finalmente, nunca nos esquecemos de Deus, já que Ele jamais se esquece de nós. Amém.
Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de histórias