Ao ler o artigo inspirado em fábula, “A praga da corrupção”, no JC de 24/06, do ilustre professor, desembargador e outros nobres títulos Regis Fernandes de Oliveira, me senti uma rã. Em fábula, uma rã em paz. Não sofredora porque não indiquei como a maioria das rãs, a serpente para reinar o charco. Prevendo a prepotência do réptil, seu apetite famélico pelo poder e a sua hipocrisia crassa com promessas inconsistentes, não estive a seu favor, livrando-me do sentimento de culpa no futuro. Se na tradição bíblica o ofídio representava o mal insinuante e manhoso, como aprová-lo? Como seria esse animal num serpentário administrado por cobras-d’água com ávido apetite de rãs? Como seria a vida num charco de pobres e ingênuas rãs esperançosas por um brejo menos infeliz?
Somente depois de três tentativas, na quarta, foi que rãs iludidas conseguiram alçar a serpente ao palácio pantanoso que seria o lamaçal de deplorável corrupção. A serpente embriagou-se com o poder e desejou entrar para a história dos pântanos do mundo inteiro. Conforme análise de rãs observadoras, após 40 meses e poucos dias de reinado, fez 102 viagens pelo mundo e 283 viagens pelos pântanos; ficou distante do palácio durante 382 dias, e ausente do charco 602 dias; exatamente 984 dias fora dos 1.200 e poucos dias de governo; o que representa 82% longe do seu gabinete. Com tanto tempo ausente é lógico que pode afirmar que não sabia da corrupção das suas minhocas despudoradas. Muitas rãs sabiam que ela sabia e se acovardavam concordando em que ela não sabia. Puro cinismo e interesse de uma serpente ardilosa. Ausência que evoca, também, sua omissão, principalmente em cuidar do procedimento ético da sua equipe de anelídeos.
A sua promessa de zerar a fome das rãs menos favorecidas com farta distribuição de insetos para alimentá-las, afundou-se nas águas estagnadas. A promessa de que todas as rãs teriam empregos com carteira assinada, naufragou; a afirmação de assistência impecável à saúde, morreu inane; a ética da dignidade prometida e feroz perseguição à corrupção, afundou no atoleiro da improbidade; transformando o charco num carnaval de bandalheiras com as minhocas corruptas, reconhecidamente culpadas, absolvidas pelo plenário composto de corrompidas minhocas-loucas e impudentes.
É curioso e preocupante que milhares de rãs continuem aplaudindo a soberba e o egocentrismo da serpente, torcendo, agindo e mentindo para que permaneça no poder, confiando nas balelas nos seus discursos evasivos; na distribuição dos míseros e demagógicos insetos às rãs humildes, analfabetas e desinformadas que passam fome e sede nas regiões mais distantes; que ignoram a corrupção e se iludem com os poucos insetos que lhes são oferecidos para enganar as necessidades primárias. Para essa santa ignorância influenciada pela miséria que interessa à serpente, o charco corre o risco de continuar sob a batuta de um maestrinho que ignora a sensibilidade do coaxar das rãs que amam o lar pantanoso. Existem, também, rãs intelectuais que, surpreendentemente, defendem a serpente manifestando um falso idealismo; são rãs profissionais, buscando permanecer no poder e continuar desmoralizando, com a serpente, a democracia do charco.
Que as rãs se cuidem antes de serem devoradas pela serpente sob o aplauso das suas minhocas; que se protejam e, pacificamente, evitem que os ofídios permaneçam no palácio nas alvoradas futuras; que saibam utilizar a única, porém poderosa arma que dispõem: o voto; o sagrado direito da escolha. A serpente desaparecerá com o mesmo veneno, o antídoto, que a levou ao trono; as minhocas terão o mesmo destino; com a verdade revelada o voto será, com a consciência das rãs, o instrumento da reconquista da dignidade perdida no pântano. Que o coaxar repercuta nos charcos como um hino cantando a ordem na honestidade e o progresso na sociedade das rãs no pantanal. Moral da história: é melhor viver em paz com a consciência do que continuar servindo aos vendilhões da dignidade. (Munir Zalaf - aposentado - RG 2.726.959)