Dá vinte ou mais interpretações (no mínimo) o filme “Código Da Vinci”, ainda em exibição em um cinema de Bauru. Sob o ponto de vista religioso, muitas têm sido as manifestações, e confesso que não me atrevo a opinar porque, para tal, seria necessário muito conhecimento histórico e teológico e, mais do que isso, muita fé e discernimento para distinguir o fato religioso em si do aspecto criativo e fictício com que foi enfocado pelo autor. Assistir ao filme foi para mim de grande valia porque, a partir de então, quis conhecer mais e confesso que cresci um pouco, pois certas passagens bíblicas ainda me eram um tanto obscuras. Na fila do cinema, à espera de outro filme, “Missão Impossível” (não tinha ingresso para Da Vinci naquele dia), ouvi de uma jovem que não cairia em mais um conto do vigário, referindo-se a Brown. Aquilo já me intrigou.
Dias depois, já sem tanta concorrência, consegui o ingresso e pude ver o tão anunciado e discutido filme que se projeta em todo o mundo. Tal como acontecera comigo, o mesmo impacto, por certo, vem ocorrendo em tantas outras pessoas sem muita informação religiosa. Como atuo (modestamente) na área de marketing, o filme fez com que voltasse para a casa com a “cabeça cheia”, daí estar ainda ligado ao filme e pesquisando este ou aquele aspecto, esta ou aquela terminologia usada em sua apresentação. Chamou-me a atenção o fato de em nenhum momento do filme verificar a observação indispensável em filmes de ficção: “As cenas deste filme são de ficção e qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência”. Acho que isso foi omitido de caso pensado. O autor queria, como posso estar seguro agora, provocar essa dúvida, especialmente naqueles que ainda não conhecem verdadeiramente o “milagre da fé”.
O filme deve ter sido produzido com dois focos: um para os religiosos convictos (e deles se esperava, como de fato ocorreu, uma forte reação à falta de veracidade dos fatos), e outro para os ateus e não tão convictos, que sairiam do cinema, como saí, com muitas dúvidas a dirimir. Mas, deixando de lado esse aspecto, que tem gerado inúmeras polêmicas em todo o mundo, sob o ponto de vista do marketing, o filme pode ser considerado um “case” vencedor, pois está aí a encher salas de cinemas e fazer com que muitas pessoas queiram se expressar a respeito (e não quero causar polêmica, nem ser base para contestações).
Tanto é verdade que uma grande operadora de turismo de São Paulo acaba de colocar no mercado nada menos que um roteiro pelos belíssimos pontos mostrados no filme e que, por acaso, ajudam a tornar Paris ainda mais interessante. Também concordo que Hanks não desempenhou seu melhor papel (prefiro seu desempenho em “Filadélfia”). O filme teve muita movimentação e sua ação contínua também cumpre seu papel de agitar as cabeças em fase de formação durante a exibição do filme. As críticas sutis ao segmento “Opus Dei” da Igreja Católica foi mais uma jogada de marketing, porque levou muitas pessoas (como a mim) à nova avaliação de certos episódios históricos que se relacionam com o catolicismo (como a Inquisição e tantos outros).
Como li num interessante comentário a respeito do filme, recomendar católicos a não assistir ao “O Código da Vinci” foi o mesmo que proibir Adão de comer a maçã (mais uma jogada prevista por Brown) e que fez com que o filme despertasse ainda mais curiosidade. Os cinco novos cinemas do Bauru Shopping não poderiam ser inaugurados de forma mais brilhante e atraente. A estréia do filme levou milhares de pessoas a conhecerem salas de exibição que, (aí também), fazem parte de outra belíssima jogada de marketing: acrescentaram atratividade a um equipamento que não mostrava novidades há anos e que, agora, pode oferecer à região outras produções como essa, que não expiram no “The End”. Quem assiste ao filme “O Código Da Vinci” fica com ele na cabeça por vários dias, quer contestando, quer buscando entender mais, quer admirando a criatividade de Dan Brown, sem dúvida um incontestável conhecedor da sétima arte. (O autor, Renato Cardoso, é delegado regional de Turismo em Bauru)