09 de julho de 2026
Política

5h de depoimentos sem revelações

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

O prefeito Tuga Angerami (sem partido) e o vice Renato Purini (PMDB) tiveram cinco horas para falar, em audiência pública realizada ontem, na Câmara Municipal de Bauru, sobre as denúncias de suposto caixa dois na campanha eleitoral. Resultado: nada de novo foi revelado.

As dúvidas permanecem as mesmas desde que o JC divulgou, em 9 de junho passado, contatos entre representante da empreiteira Marquise, um intermediário, com o vice-prefeito e o ex-diretor de Limpeza Pública da Emdurb Jorge Monteiro.

A audiência foi convocada para que Angerami e Purini falassem sobre as denúncias reveladas pelo JC de que a empreiteira Marquise teria doado até R$ 400 mil, não contabilizados, à campanha da chapa Tuga-Purini, mas o que se viu foi mais uma prestação de contas dos atos do Executivo do que esclarecimentos sobre o caso.

Nos poucos momentos em que o assunto central foi tratado na audiência a respeito das denúncias, o que houve foram muitas negativas e discursos evasivos, de ambos os lados. Em um desses raros momentos, o prefeito Tuga Angerami afirmou que não houve sequer tesoureiro em sua campanha e que todas as despesas foram tratadas diretamente por ele junto a colaborares da aliança, sem, entretanto, apontar nomes. O vice-prefeito também afirmou não ter conhecimento de um tesoureiro na campanha e negou que o ex-diretor da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) Jorge Monteiro fosse um captador de recursos, como seu próprio ex-homem de confiança revelou ao JC e à Promotoria, vindo, depois, a tentar se desmentir.

Angerami e Purini ainda negaram qualquer contato com representantes da empreiteira Marquise. Pelo contrário, afirmaram que se encontraram com uma pessoa em São Paulo, mas que ela não se identificou como sendo da empresa em questão. “Não vou afirmar que tive contato com a Marquise, porque a pessoa que nós encontramos falou de várias situações, sem citar uma empresa especificamente”, disse Angerami. “Não posso dizer que a pessoa em questão era da Marquise”, completou Purini.

Eles também voltaram a negar que estiveram com esse suposto representante da Marquise em um hotel, conforme declarou – e depois desmentiu – o ex-diretor da Emdurb Jorge Monteiro. “Houve um breve encontro em frente à empresa do Chico Vasconcelos, quando fomos pedir para ele fazer uma consultoria à campanha”, salientou Angerami, com a confirmação de Purini.

Benê lembra

Curiosamente, o vice-prefeito disse, em entrevista ao JC no dia 15 de junho, que houve contatos com a empresa e que o prefeito participou desses contatos, apesar da conversa com o representante da Marquise não ter prosperado. Na ocasião, Purini lembrou inclusive que a empresa procurou outros candidatos, o que para ele demonstrou que a empresa tinha interesse em atuar na cidade.

A reportagem do dia 15 de junho foi citada pelo vereador Benedito da Silva (PSDB) durante a audiência. O parlamentar questionou a contradição entre o depoimento de Purini à Câmara Municipal e o que foi dito ao JC. Ao responder a questão, o vice-prefeito disse que pode ter havido “um erro de interpretação”. “Não houve mentira de nenhum lado. Talvez eu tenha sido mal interpretado nas minhas colocações”, justificou.

Outro ponto muito questionado foi com relação ao contrato de emergência para a coleta de lixo em Bauru, em janeiro de 2005. Na época, a Marquise chegou a se instalar na cidade, mas o contrato não chegou a ser assinado por causa de pressões da opinião pública.

Segundo Purini, na ocasião ele não se atentou ao fato de que – “coincidentemente” - a empresa escolhida para assinar o contrato de emergência era a mesma que havia procurado ele e Angerami, durante a campanha. O vice-prefeito declarou que a Emdurb solicitou à Associação Brasileira de Limpeza Pública que indicasse empresas que teriam condições de assumir a coleta em caráter de emergência. “A associação indicou quatro ou cinco empresas e nós solicitamos, por fax, os valores de cada uma delas. A vencedora foi a Marquise, mas o contrato não chegou a ser assinado”, frisou.

Debate engessado

Na prática, a audiência pública foi mais uma reunião burocrática, cheia de discursos longos e sem objetividade nas respostas. Na primeira parte, o prefeito Tuga Angerami e o vice Renato Purini se preocuparam mais em falar sobre suas condutas durante a vida pública e pessoal do que ir direto ao ponto central, ou seja, as denúncias de suposto caixa dois.

A fórmula utilizada para que os vereadores fizessem as perguntas “engessou” possíveis réplicas que os parlamentares fariam, caso não estivessem satisfeitos com as respostas de Angerami e Purini logo em seguida às suas falas. Essa insatisfação ocorreu em várias oportunidades, obrigando vereadores a pedirem a intervenção do presidente da Câmara, Toninho Garmes (PSDB), para que fossem dadas respostas mais objetivas.

O fato de não haver tempo limite para que prefeito e vice respondessem também deixou margem para que ambos dessem voltas antes de chegar ao ponto principal da pergunta formulada, principalmente o prefeito Tuga Angerami, que aproveitou a audiência mais para falar de sua administração do que para esclarecer os fatos.