09 de julho de 2026
Geral

Agentes prometem parar por 24h hoje

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Hoje é dia de visita na maioria dos presídios de Bauru e região, mas os detentos podem não receber seus familiares se a paralisação anunciada ontem pelo Sindicato dos Trabalhadores do Complexo Penitenciário do Centro-Oeste Paulista (Sindcop) tiver adesão da categoria. Anteontem à noite, os agentes decidiram, em assembléia no sindicato, suspender as atividades por 24 horas por cada colega morto em ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Ontem pela manhã, um agente foi assassinado na Capital, o que desencadeou a organização do ato no Estado.

“Nós convocamos os agentes e estou percorrendo as unidades divulgando a paralisação da zero hora de sábado a zero hora de domingo, mas não sabemos qual será a adesão da categoria”, pondera Reinaldo Duarte Soriano, vice-presidente do Sindcop. A decisão tomada em assembléia é que, durante eventual paralisação, todos os agentes que estiverem dentro da unidade não vão exercer nenhuma atividade por 24 horas, o que suspenderia as visitas.

Se a paralisação ocorrer durante a semana, ficariam mantidos apenas os procedimentos para cumprir alvarás de soltura, atendimentos emergenciais de saúde e atendimento do tribunal do júri. Mas Soriano também teme alguma represália do PCC caso a paralisação dos agentes realmente suspenda as visitas aos presos. “É claro que eles (os presos) não vão gostar. Agora há pouco vi na TV um atentado em um trem em São Paulo, uma coisa estranha. Não sei se tem a ver com facção criminosa, mas é um fato estranho”, diz.

Mesmo de folga, Marcos Machado, agente que atua no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru, um dos quatro presídios do município, vai para a unidade hoje para conversar com os colegas e recomendar a eles que cruzem os braços por 24 horas, conforme foi decidido pelo sindicato. ”Vamos sim parar e acho que vai ser 100%”, diz ele, que afirma que 24 horas de paralisação ainda é muito pouco para protestar pela morte de um colega.

Já outro agente penitenciário ouvido pelo JC, que trabalha na Penitenciária 2 e preferiu não ter seu nome divulgado, não acredita na paralisação. Para ele, os agentes não vão aderir ao movimento porque teme ter os dias parados descontados de seus salários e até serem transferidos. “Na última greve, paramos oito dias. Tive R$ 600,00 descontados do meu salário e precisei fazer empréstimo que pago até hoje. Outros agentes foram transferidos”, lembra ele.

Por isso, o agente afirma que não vai deixar de trabalhar. “O pessoal está com medo porque o sindicato decide fazer greve, mas não dá garantia nenhuma para gente. Todas as ações que o departamento jurídico do sindicato entra, perde”, diz. Um segundo agente penitenciário, que também preferiu não se identificar, disse que até ontem não sabia se vai aderir ou não. “Tenho medo de, com uma paralisação, aumentar os ataques, de todos nós tornarmos alvo. Por outro lado, acho que a gente tem de fazer alguma coisa”, ressalta.

Se a paralisação ocorrer, entre as tarefas que serão interrompidas está o atendimento ao deslocamento de prisioneiros, visitação de advogados, audiências jurídicas e recebimento de presos. A paralisação foi acordada pelos três sindicados da categoria no Estado de São Paulo.

Em uma semana, seis funcionários de presídios foram mortos em São Paulo, em ações atribuídas ao PCC. São filiados ao Sindcop cerca de 1.700 funcionários de presídios de Bauru e região.

Colega

O vice-presidente do Sindcop conta que na terça-feira, em reunião na Capital com representantes dos três sindicatos dos agentes do Estado de São Paulo, esteve com o agente morto ontem, Paulo Gilberto de Araújo. “Ele estava na reunião“, diz Soriano que, após o novo ataque, está ainda mais preocupado com sua segurança.

Ele comenta que há informações que o PCC teria dado ordem para atacar agentes penitenciários, em especial os que atuam em sindicatos, supostamente para desmobilizar a categoria. “Não cheguei a tomar medidas drásticas, como mudar de casa, mas estou mais cauteloso. Preocupado principalmente com minha família”, ressalta Soriano.