11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Idoso come mal por falta de dinheiro

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 4 min

Está cada vez mais difícil fazer com que o custo de vida caiba no orçamento familiar. Grande parcela da população passa apertado todos os meses para saldar as despesas com aluguel, energia elétrica, água, supermercado, farmácia, roupas, entre outras. A situação se agrava entre as pessoas com mais de 60 anos. Em geral, passam a morar sozinhas depois que os filhos se casam. Os gastos com medicamentos aumentam por conta da idade e, por isso, a saúde começa a ser prioridade.

Dessa forma, a alimentação, que precisa ser diferenciada e enriquecida nesta fase da vida, fica para segundo plano. O dinheiro não é suficiente para suprir as necessidades alimentares.

A dona de casa Aparecida de Pontes, 52 anos, vive essa realidade em Bauru. Com uma renda mensal de R$ 350,00 que tem de dividir com o marido de mais de 60 anos de idade, disponibiliza ao supermercado a sobra do pagamento de contas de água, luz, telefone e da farmácia. As despesas, segundo ela, somam mais de R$ 150,00.

“Peixe, a gente só come na Quaresma. Carne, uma vez por semana e olha lá. No dia-a-dia, o prato da casa é o arroz com feijão, batata e salada”, comenta Pontes, que mora no bairro Nova Esperança.

A situação da dona de casa é comum entre muitas pessoas da mesma faixa etária, que inclusive não conseguem fazer mais do que três refeições ao dia, o mínimo recomendado por médicos e nutricionistas.

Na Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), o Programa Municipal de Atenção ao Idoso (Promai) atende cerca de 4 mil pessoas. Desse total, conforme a assistente social Darlene Martins Têndolo, grande parte não tem condições para se alimentar adequadamente. O baixo poder aquisitivo dessas pessoas impede que elas consumam alimentos nutritivos, como frutas.

“O hábito alimentar dessas pessoas é compatível com a condição financeira de cada um. Infelizmente, o pagamento do aluguel, da água e da luz é a prioridade. Eles precisam de um lugar para morar”, destaca.

A nutricionista Adriane Gasparino dos Santos diz que o idoso, de fato, necessita de uma alimentação diferenciada para diminuir as conseqüências causadas pelo envelhecimento, como perda de massa muscular, enfraquecimento dos ossos e vulnerabilidade a doenças.

Vitaminas

O consumo de peixes, por exemplo, precisa ser intensificado, já que é um alimento rico em ácidos graxos essenciais, que aumentam a imunidade do organismo e aceleram a cicatrização de ferimentos. Santos sugere que, ao invés de um salmão, o idoso pode optar por sardinha, cujo preço é bem menor e o valor nutritivo, praticamente o mesmo. O alimento deve ser consumido, no mínimo, duas vezes por semana.

As vitaminas, especificamente A, C e E, também não podem faltar no cardápio, alerta a nutricionista. Conforme Santos, elas podem ser obtidas em produtos de baixo custo, como frutas e vegetais. A acerola e a laranja são grandes fontes de vitamina C, assim como o mamão e legumes como a cenoura. A vitamina A é comum em folhas verdes escuras, enquanto a E, em germes de trigo e alguns óleos de origem vegetal.

“São alimentos baratos, que inclusive podem ser cultivados no quintal de casa. Outra alternativa é substituir alimentos que são consumidos com freqüência, porém não muito adequados à saúde do idoso, por esses produtos”, orienta a nutricionista.

Santos também ressalta que as proteínas, muito importantes na refeição dos idosos, principalmente por preservarem a massa muscular, também podem ser consumidas em alimentos de baixo custo. É o caso dos grãos, como o arroz e o feijão, que estão diariamente na mesa das pessoas, do leite e de carnes brancas sem pele, preferencialmente.

“Também é importante que as pessoas com mais de 60 anos consumam menos açúcar. No entanto, não é preciso comprar produtos light ou diet. Basta diminuir a quantidade de açúcar, o que também vai resultar em economia”, recomenda.

Alimentação saudável

A manicure Maria Elisa da Silva Ferrari, 60 anos, faz questão de se alimentar de forma saudável, assim como recomendou seu médico. Como ela sofre de pressão alta e diabetes, usa adoçantes e consome apenas produtos light e diet. Folhas, legumes, frutas, peixe e carne branca também fazem parte do cardápio.

Ferrari conta que chega a gastar R$ 200,00 a mais no mercado por conta do hábito alimentar que decidiu adquirir após uma consulta médica. Sua renda mensal é de R$ 1.000,00.

“Posso dizer que aprendi a comer e que esse bem-estar não tem preço. Hoje, minha pressão e diabetes estão sempre controladas. Nunca mais tive problemas”, comenta.

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Inflação

O economista Adriano Fabri diz que nos últimos 18 meses os produtos específicos à terceira idade ficaram mais caros, o que tem diminuído o poder de compra dos aposentados. Antes desse período, porém, o custo de vida da categoria estava abaixo da inflação.

Segundo ele, o mais recomendável é pesquisar. “A pesquisa é a melhor alternativa, tanto em relação ao ponto de venda quanto à marca. Existe uma diferença significativa entre as marcas e, às vezes, com a mesma qualidade e mesma quantidade”, acrescenta.