Falar em brincadeiras como betes (ou taco), pipa ou burica para uma criança nascida e criada em apartamento de condomínio de classe média pode parecer “sessão nostalgia”. Na era em que computador virou “brinquedo de criança” e videogames são capazes de reproduzir feições e movimentos quase humanos, brincadeiras que utilizam bolinhas de vidro, tacos de madeira e garrafas usadas ficam relegadas ao status de “coisas do tempo da vovó”.
Mas nos bairros periféricos de Bauru, onde boa parte das pessoas sequer mexeu em um computador e um nome como Lara Croft soa parecido ao de marca de salgadinho crocante, as crianças contam apenas com as tradicionais “brincadeiras de rua” para ocupar o tempos nas férias.
E o mais estranho é que elas se divertem. “Vou passar o mês todo jogando betes, andando de bicicleta e jogando bola na rua. É muito divertido”, diz Daiani Gonçalves, 11 anos, moradora do Núcleo Édson Francisco, zona noroeste da cidade. Ela poderia perder todo o mês de julho vendo televisão, mas prefere reunir os amigos para brincar na rua.
Lazer divertido, mas perigoso. A rua onde Daiani brinca com os amigos, a João Davilla Munhoz, é toda esburaca e as crianças precisam disputar espaço com os carros. “Dá medo porque na rua há muitos carros”, diz Claudemir Donizeti Anastácio, morador do bairro e pai de um garoto de 11 anos, que também jogava betes na rua.
Na falta de áreas apropriadas para os filhos brincarem, resta a mães e responsáveis aceitar que os filhos usem a rua como lugar de diversão, ainda que durante um curto espaço de tempo.
“Não gosto que meu neto brinque na rua, mas de vez em quando acabo deixando que ele brinque na calçada, para não ficar o dia todo preso dentro de casa”, diz Heloísa Vieira Guimarães, avó de Thiago, de 5 anos, e moradora da Vila São Paulo, zona norte da Bauru. O jeito para ela é não perder a atenção. “Fico de olho nele o tempo todo”, afirma ela, enquanto observa o neto jogar burica na calçada com o amigo Luís Fernando, de 8 anos.