09 de julho de 2026
Ser

Por uma sociedade inclusiva

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Programas de reabilitação física, orientação profissional, educação básica e terapia ocupacional para pessoas com deficiência física, mental, auditiva ou múltipla, hanseníase e casos sociais, além de projetos nas áreas de direitos humanos, saúde, familiares de usuários e atendimento às famílias e Organizações Não-Governamentais (ONGs) interessados nas questões sobre deficiência. Estes são alguns dos serviços oferecidos pela Sorri-Bauru, que completa neste ano três décadas de atividades desenvolvidas na cidade e região.

Somente no ano passado, 470 pessoas foram atendidas pela entidade, responsável também pela fabricação do estesiômetro, instrumento que ajuda na detecção de doenças, e que teve 30.383 unidades distribuídas em todo o País e Exterior em 2005.

Isto não seria possível sem a participação direta do pesquisador e administrador americano Thomas Ferran Frist, que idealizou o projeto de construção da Sorri-Bauru. Tudo teve início na década de 70, quando ele veio ao Brasil para realizar um estudo sobre o problema da segregação das pessoas com hanseníase. Pouco tempo depois, foi fundada uma entidade de assistência a portadores da doença e também de outras deficiências, conta Thomas.

De acordo com ele, mais do que oferecer assistência ao portador de deficiência, é fundamental enxergá-lo como um indivíduo e incluí-lo na comunidade. “Todos nós temos deficiências. Se um dia fico doente, posso me tornar incapaz de executar determinada tarefa. Outro exemplo simples é a pessoa que vai à rodoviária com uma mala. Ao invés da escada, ela pode utilizar a rampa, que serve tanto para pessoas com ou sem deficiência física”, diz.

Thomas esteve em Bauru na última semana e, como todos os anos, visitou e acompanhou de perto o desenvolvimento da instituição. Durante sua estadia, recebeu a equipe do Jornal da Cidade e participou de uma entrevista. Thomas, que nasceu na Flórida, Estados Unidos, domina bem a língua portuguesa e, entre outros assuntos, analisou a evolução da Sorri-Bauru e o processo de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade.

Jornal da Cidade - Quando e como foi fundada a Sorri?

Thomas Ferran Frist - A Sorri foi fundada em 1976, em Bauru. Eu cheguei no Brasil em 1974 para fazer uma pesquisa sobre os problemas que impediam a integração social de pessoas com hanseníase na sociedade. E, depois de dois anos de pesquisas, decidimos fundar uma entidade para ajudar na reabilitação profissional de pessoas com hanseníase e também para outros tipos de deficiência. A idéia era integrar todos na sociedade.

JC - Como era este trabalho?

Thomas – Não queríamos criar uma outra entidade segregada. Então, desde o início, a Sorri foi uma entidade integrada. Trabalhamos juntos com o Hospital Lauro de Souza Lima naquela época. Montamos um programa de reabilitação física dentro do hospital e na Sorri, de reabilitação profissional. Mas estes programas também eram abertos a qualquer tipo de deficiência.

JC – Por que a hanseníase foi o tema de sua pesquisa?

Thomas - Havia muito preconceito naquela época e quando chegamos ao Brasil haviam entre 500 e 600 mil pessoas com hanseníase estimadas no País. A idéia era ajudar o Hospital Lauro de Souza de Lima a se transformar em um centro internacional de treinamento em hanseníase. O hospital cuidaria da parte médica, os centros da saúde ficariam responsáveis pela prevenção e tratamento da doença e a Sorri ficaria com a parte de reabilitação profissional e socioeconômica para portadores de hanseníase e de outras doenças.

JC – E, atualmente, ainda existe esta parceria da Sorri com o Hospital Lauro de Souza Lima?

Thomas – Ainda existe, mas não tanto como era antes. Muitas pessoas do hospital na área médica foram inicialmente ajudadas pela Sorri e contratadas pelo governo. Médicos como Diltor Opromolla e Oswaldo Cruz foram conselheiros importantes da Sorri. Então ainda existe uma ligação, mas não tão forte como antes.

JC – Como o senhor analisa a Sorri-Bauru desde o início de sua fundação até os tempos atuais? Ocorreram mudanças?

Thomas – Uma entidade tem de se adaptar às necessidades da comunidade. Acho que conseguimos resolver muitos problemas de hanseníase no País. A Sorri está entrando em uma nova fase de reabilitação física que não fazia antes por causa das necessidades da população. A entidade está fazendo a reabilitação profissional, mas também ampliando serviços de reabilitação médica. Antigamente a Sorri fabricou aparelhos para deficientes, como muleta e cadeiras de rodas, e pretendemos ainda voltar a fazer produtos do gênero, mas pela primeira vez a Sorri está cuidando especialmente da área médica. Isto é muito importante porque a idéia é ajudar as pessoas com deficiência respondendo a todas as suas necessidades, sejam elas na parte profissional ou médica.

JC – A entidade também desenvolve trabalho na área de educação básica?

Thomas – Sim. Educação básica e do público, porque a Sorri é muito conhecida pela Turma do Bairro, projeto que aborda o preconceito a pessoas com deficiência, tratando de temas como a necessidade de mudanças de barreiras arquitetônicas para dar acesso a deficientes. Outro ponto importante para destacar é a reabilitação profissional, área de ganhou mais incentivo com as novas legislações e fizeram com que as empresas ficassem mais abertas às pessoas com deficiência.

JC – A Sorri possui outras unidades no País?

Thomas – A Sorri-Bauru foi fundada em 1976. Em 1985 a Sorri-Bauru criou a Sorri-Brasil, com sede em São Paulo. Hoje existem unidades em Campinas, Sorocaba, Salvador, Amazonas, entre outros locais.

JC – Qual é a principal filosofia da Sorri?

Thomas – A idéia principal da Sorri é dar dignidade à pessoa deficiente, desenvolvendo uma parceria com a comunidade. Quando podemos acabar com os preconceitos e dar oportunidade ao deficiente, ele tem muito para contribuir na sociedade.

JC – Apesar disso, o preconceito ainda existe na sociedade. Qual é a melhor maneira de se tornar efetiva a inclusão da pessoa com deficiência?

Thomas – Existe preconceito sim, mas está diminuindo. Um aspecto importante é dar condições para que o portador de deficiência possa se sustentar e contribuir para a sociedade de alguma maneira. E, quando o deficiente é visto como pessoa e não como deficiente, o preconceito não existe. Eu vejo uma pessoa com deficiência como meu amigo, um profissional. Não vejo a deficiência. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ex-presidente Roosevelt era deficiente, mas as pessoas nunca pensavam nele desta maneira e sim como presidente do país. Em décadas passadas, muitos se referiam ao portador de hanseníase com nomes pejorativos. Não viam que ele era um pai de família ou um profissional que tinha apenas uma doença. É muito sério identificar uma pessoa pelo problema que ela tem, seja uma doença ou deficiência. É necessário pensar primeiro na pessoa e no seu valor. A deficiência e o problema são secundários.

JC – O senhor citou o presidente Roosevelt anteriormente. Como o governo e a sociedade americana lidam com portadores de deficiência?

Thomas – Nos Estados Unidos, por causa da 2.ª Guerra Mundial, as pessoas com deficiência se uniram para pressionar o governo e ter mais espaço na sociedade. Então este movimento nos EUA é muito forte: todos os prédios têm acesso para pessoas com deficiência e existem leis que proíbem a discriminação. As escolas também são integradas. Desde o primário até a universidade, o deficiente tem direito a freqüentar as escolas normais e não especiais. Há classes para ajudá-los nesta adaptação.

JC – E no Brasil, existe trabalho semelhante?

Thomas - A Sorri-Brasil está envolvida no trabalho de integração com as escolas em parceria com o Unicef. A entidade realizou treinamentos para órgãos do governo abordando a integração social de pessoas com deficiência na escola. O projeto ganhou prêmio e envolveu o desenvolvimento de trabalhos realizados pela Sorri e a Turma do Bairro.

JC – Qual a importância do kit estesiômetro patenteado pela Sorri-Bauru?

Thomas – Ele é exportado para diversas cidades do Brasil e também para outros países do mundo, como a China. Foi fabricado especialmente para a hanseníase. É uma maneira de medir a sensibilidade do indivíduo por meio do toque e detectar a doença. O kit foi inventado por um grupo de profissionais da Sorri junto com o Hospital Lauro de Souza Lima. Este aparelho também ajuda pessoas com diabetes.

JC – O senhor voltou recentemente da Nicarágua. Estava coordenando algum projeto de inclusão social no país?

Thomas - Estive na Nicarágua para ajudar a montar uma fundação de desenvolvimento econômico, não tinha relação com pessoas portadoras de deficiência. O país é muito pobre e isolado e a intenção é criar empregos para a população. Apesar disso, este projeto tem semelhanças com o meu trabalho desenvolvido no Brasil, que busca a inclusão profissional.

JC - O senhor dedicou grande parte de sua vida ajudando e coordenando projetos de assistência e inclusão social?

Thomas – Sim, sempre estive interessado em Organizações Não-Governamentais (ONGs) e envolvido em projetos para ajudar a melhorar os problemas sociais. Quando me formei fui para África e Índia e também fiquei muito tempo no Brasil.

JC – A família apóia seu trabalho social?

Thomas – Minha esposa, que veio ao Brasil comigo, ajudou bastante no meu trabalho realizado na Sorri e na Nicarágua. E a minha filha se formou recentemente na universidade e seu primeiro emprego será em Moçambique. Ela permanecerá durante um ano ajudando ONGs e também atuando na área de desenvolvimento econômico. Adotamos um filho no Brasil, que tem 18 anos e entrará na faculdade ano que vem. Desta vez ele não veio comigo e com minha esposa, mas normalmente nos acompanha porque gosta muito no Brasil.

JC – Quais são seus principais sonhos ou projetos?

Thomas – Tenho vários sonhos. Um deles é fazer do nosso sítio (em Bauru) um lugar de retiros espirituais. Outro é criar um projeto de assistência a idosos incapacitados, para que eles possam receber ajuda nas suas próprias casas. Ainda estou ajudando nos programas da Nicarágua e quero continuar neste projeto, mas também sinto uma necessidade grande de desenvolver atividades de assistência social na África, que é um país muito pobre. Minha filha irá para Moçambique e, no futuro, sonho em fazer algo na área de desenvolvimento econômico com a ajuda dela.

JC – Além da área de promoção social, o senhor se dedica à literatura. Está escrevendo alguma obra atualmente?

Thomas – Eu já escrevi dois livros, um romance sobre o Brasil e outro sobre hanseníase baseado em um trabalho brasileiro para acabar com o preconceito, não somente a esta doença mas também em relação a outras. E agora estou escrevendo dois outros livros: um romance sobre a Nicarágua e outro sobre o desenvolvimento e as dificuldades em se fazer o bem.