09 de julho de 2026
Internacional

Cineastra americano David Lynch vê outsiders diante da realidade

Folhapress
| Tempo de leitura: 1 min

O que primeiro salta aos olhos em dois filmes de David Lynch recém-lançados em DVDs com extras é o habitual desconforto. Estão lá o exagero, o grotesco e o mundo surreal tanto do rapaz deformado de “O Homem Elefante” (1980) quanto dos outsiders e das figurinhas bizarras de “Coração Selvagem’’ (1990).

O maior interesse que reside nessas revisões, no entanto, é testemunhar as transformações sofridas pelo próprio diretor. A radicalidade de Lynch, em qualquer que seja sua fase, está menos no exotismo de seus personagens do que na ousadia em não oferecer significados “lógicos’’ ao público, como se dissesse que a experiência do cinema fosse como a própria vida, impossível de ser totalmente esquadrinhada.

Seu foco, contudo, teve certa variação. “O Homem Elefante’’ e “Coração Selvagem” mostram personagens em conflito com o mundo ao redor, enquanto sua safra mais recente, de filmes como “Cidade dos Sonhos’’ e “Estrada Perdida’’, vem habitada por pessoas em conflitos mais interiores, em busca da própria identidade.

Tanto o John Merrick de “O Homem Elefante’’ quanto o casal Sailor e Lula de “Coração Selvagem” atravessam uma longa e violenta estrada em busca da felicidade - que não tarda a chegar, mesmo que de forma irônica.

No primeiro, baseado em uma história real, o deformado Merrick tenta se tornar mais do que uma atração de circo, enquanto, no segundo, a dupla vê uma desfigurada América profunda, de ícones culturais, como se fossem caricaturas de Elvis Presley e Marilyn Monroe (“Este mundo é selvagem por dentro e estranho por fora’’, resume Lula).

Os extras dos DVDs acabam exercendo função um tanto contraditória ao discurso de Lynch, já que explicam demais: “O Homem Elefante’’ vem com um documentário sobre o personagem real, enquanto “Coração Selvagem’’ tem equipe falando sobre as filmagens.