08 de julho de 2026
Ser

Desamparo coletivo

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 2 min

Os ataques, rebeliões, mortes e incêndios em ônibus encabeçados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) levaram moradores de diversas regiões paulistas a um clima de insegurança pública. Em Bauru não foi diferente e, apesar do ritmo dos ataques ter diminuído, a violência contamina a maior parte da população, que se sente tensa, desprotegida e indignada com a situação atual.

É o caso da aposentada Amábile de Carli Gigo. Por motivos de segurança, ela conta que se “aprisionou” em sua própria residência. Aumentou os muros, instalou um portão fechado e protegeu todas as janelas com grades. “Minha casa parece uma cadeia. Infelizmente é preciso, porque tudo está muito perigoso”, diz.

Desde que a nova onda de ataques na Capital e em Bauru começou, ela mudou alguns hábitos. Quase não sai de casa à noite e evita utilizar ônibus de transporte coletivo. “Prefiro ir a pé, apesar de ter que andar bastante. Hoje em dia, quem não tem medo da violência?”, questiona.

A reclamação de Amábile soa como eco coletivo e retrata, na maioria das vezes, o quanto as pessoas se sentem desamparadas diante das dificuldades e situações de conflito, aponta a psicóloga e psicanalista Maria Teresa Menicucci.

Segundo ela, a desproteção causada pela violência remete o ser humano a algo primitivo de sua existência: a fragilidade da vida. “O indivíduo está dentro de um ônibus e por causa de um ataque é obrigado a sair. A violência promove isso. De repente sentimentos de tranqüilidade e de sobrevivência são abalados”, exemplifica.

Por conta disso, é quase impossível ficar indiferente à violência. Quando se trata de ataques do PCC a agentes penitenciários, policiais, familiares ou pessoas que passaram por situações de perigo, a sensação de insegurança é mais delicada, destaca Maria Teresa.

Isto pode ser exemplificado pelo caso de Luciene, esposa de um policial militar. Ela diz que não tem medo de sair na rua, mas desde que os ataques criminosos começaram redobrou a atenção e cuidados com a segurança de sua família.

Assim como ela, muitas pessoas adotam medidas para prevenir ações criminosas. O mototaxista Celso Lopes, por ter sido assaltado uma vez, atualmente não está trabalhando à noite. Além disso, comprou um novo colete com letras maiores e cores vibrantes para facilitar a visualização. “Os bandidos não estão atacando pessoas comuns, somente policiais. Mesmo assim não há segurança.”

A declaração de Celso indica que, independente da distância – física ou emocional – todas as pessoas reagem a situações de conflito urbano, reforça Maria Teresa. Há também outro grupo composto por pessoas aterrorizadas com a violência e que bloqueiam suas sensações para não entrar em pânico.

“Elas costumam fazer de conta que não é nada, mas isto é apenas uma proteção para que continuem ‘funcionando’. No fundo estão realmente muito desesperadas, com medo de se emocionarem e não saírem mais de casa.” Em casos extremos, esta condição pode levar ao pânico – que é o medo generalizado -, aponta a psicanalista.