Vale do Bekaa - Se não houver mais um cancelamento de última hora, termina hoje para cerca de mil cidadãos brasileiros a angústia de ficar isolados numa área de conflito. Nos 20 ônibus que partem em dois turnos do vale do Bekaa, no leste do Líbano, eles deixam para trás o desejo da volta às origens, em troca de refúgio para os bombardeios diários na região nos últimos 12 dias.
Depois da frustração com o cancelamento da operação de retirada de cerca de 800 brasileiros que ocorreria na última sexta, um novo comboio foi organizado por líderes da comunidade, que ajudaram o consulado a fretar ônibus e convocar interessados. Segundo o Itamaraty, por segurança, o Exército de Israel impediu que o comboio usasse uma estrada na parte oriental do Líbano, pela qual a viagem levaria 90 minutos, e ordenou que ele seguisse pelo norte, em trajeto de 14 horas.
Por causa do número limitado de vôos da Força Aérea Brasileira (FAB), a retirada completa das cerca de 1.300 pessoas que formalizaram pedidos de retorno deve durar até a semana que vem, caso não suba a demanda. Até o fim de semana, pelo menos 975 brasileiros terão sido retirados via Síria em cinco vôos da FAB e dois da TAM.
Airbus da empresa, que já estava no Oriente Médio e tem capacidade para 225 pessoas, decolará de Damasco na quarta. A aeronave poderá retornar a seguir para outro vôo da Síria, em operação paga pela TAM.
Dois vôos da FAB já decolaram da Síria com brasileiros - um dos quais, com 150 pessoas, chegará na tarde de hoje a São Paulo. Ontem, outros 73 brasileiros deixaram o Líbano em um navio canadense.
O medo transformou agitadas localidades do Bekaa em cidades fantasmas. O isolamento aumentou com o bombardeio de vias de acesso a Beirute e a Damasco. Da estrada que liga a capital ao vale, a reportagem presenciou três ataques, que aparentemente visavam depósitos e fábricas.
Ontem, enquanto se preparavam para partir, escolhendo o que incluir nos dez quilos de bagagem a que cada um tem direito, os brasileiros exibiam alívio e preocupação. “É muito difícil deixar tudo de uma hora para outra”, diz Maamoun Saif na varanda de sua casa, na cidade de Sultan Yaakub. Maamoun - que levará a mulher e os dois filhos de volta ao bairro paulistano do Tatuapé, que deixou há oito anos - vive a experiência de ser um refugiado de guerra pela segunda vez. Em 1982, quando Israel invadiu o Líbano, ele estudava em Beirute e teve menos tempo para sair. “Tive que deixar o país vestido com as roupas da minha tia, porque estava sem passaporte.”
No Bekaa, onde calcula-se que haja pelo menos 6 mil cidadãos do país, o Brasil está em toda parte, da loja de roupas femininas “Belíssima” ao salão de manicure que oferece seus serviços de depilação em português. “Não há uma só casa aqui em que não haja pelo menos uma pessoa que fale português”, diz o paulistano Mohamad Abduni, vereador em Sultan Yaakub e um dos organizadores do comboio.
Em tempos de guerra, conta, a bandeira do Brasil deixou de ser um símbolo de patriotismo para tornar-se instrumento de autodefesa. “Sei que os israelenses gostam do Brasil, por isso coloquei a bandeira na porta de casa”, diz Abduni, que mora a poucos quilômetros da fábrica bombardeadaonde morreu o brasileiro Dib Barakat, na semana passada.