08 de julho de 2026
Internacional

Beirute tenta voltar à rotina

Por Marcelo Ninio | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Beirute - Impiedosamente destruída durante a guerra civil (1975-1990), Beirute voltou a viver o drama de uma cidade sitiada. Seus moradores foram surpreendidos com a súbita transformação da atmosfera relaxada do verão mediterrâneo de duas semanas atrás para o estado de guerra. Agora, buscam inspiração nos que superaram o brutal conflito terminado há 16 anos para retomar a sua rotina, fraturada por 13 dias de ataques. Mas não é fácil.

Só uma pequena porção da capital foi atingida pelos bombardeios israelenses, sobretudo os subúrbios xiitas. Entretanto, mesmo para os que vivem nas áreas poupadas pelos mísseis, tudo mudou. A maioria das lojas continua fechada, e grande parte da população não sai de casa. Há, porém, tímidos sinais de retomada.

“Nos primeiros dias de ataques, Beirute era uma cidade fantasma. Poucos ousavam sair de casa, pois ninguém sabia onde cairia o próximo míssil israelense”, conta Ahmad Farroukh, 30 anos, que se ofereceu para ajudar refugiados que lotam o parque Sanaya, no centro da cidade.

O trabalho voluntário de Farroukh é uma das formas de resistência. Outros são hedonistas. Acreditam que a melhor forma de mostrar a Israel e ao mundo que o moral dos libaneses é sólido é manter a alegria. É o caso dos freqüentadores da vida noturna de Brumana, na região montanhosa perto de Beirute. Todas as noites uma longa fila de carros engarrafa as ruas com jovens em busca de refúgio nos muitos bares e discotecas.

“É uma espécie de catarse, sem dúvida, mas também é uma forma de mostrar que nada vai mudar nosso estilo de vida”, grita o estudante Emile, 24 anos, com uma garrafa de cerveja na mão, enquanto dança ao som ensurdecedor da música eletrônica no Mood's Pub.

Pouco depois, quando o estrondo de um míssil israelense é ouvido ao longe, em alguma parte do Sul de Beirute, o bar inteiro levanta um brinde. À vida.

Entre a sofisticada Brumana e os gramados cobertos de refugiados de Sanaya, há também um abismo social. Nas montanhas está a classe alta de Beirute, que tem condições de deixar o país ou de esquecer a guerra por algumas horas. Em Sanaya estão os que fugiram do conflito, as famílias carentes do Sul que perderam tudo. O que os une? A revolta contra Israel.

“Estamos submetidos a uma agressão injustificável. O que nos resta é ajudar uns aos outros, sem pensar se as vítimas são cristãs, sunitas ou xiitas”, diz Gaith el Solh, 27 anos, cristão maronita desempregado, que atua como voluntário.

Alguns alimentos sumiram das prateleiras, outros dobraram de preço. Gaith exemplifica: “A caixa com 16 ovos pulou de US$ 3 para US$ 6. O pão custava US$ 1 e foi para US$ 2”.