Quem já prestou vestibular sabe o que a relação candidato por vaga quer dizer. Em muitos casos, os números determinam a escolha do curso ou da faculdade que o estudante pretende disputar. No caso dos políticos, o vestibular é a eleição, que ocorre de quatro em quatro anos. Guardadas as diferenças, os candidatos a deputado precisam passar pela “nota de corte”, ou seja, o número de votos que serão contabilizados em 1o de outubro, data da eleição deste ano, através do chamado coeficiente eleitoral, quantidade de votos necessária para eleger uma cadeira no Legislativo.
No Estado de São Paulo são 1.067 candidatos a deputado federal neste ano. Os deputados paulistas têm direito a 70 cadeiras na Câmara dos Deputados, em Brasília. Neste caso, a proporção paulista para a disputa é de 15,24 candidatos por vaga. O número revela como é acirrada a busca por uma vaga no Estado, de um lado, e mostra, de outro, a distorção no sistema de representação legislativa no País, já que São Paulo tem o maior colégio eleitoral do País, mas nem por isso garante o preenchimento de vagas na proporção de seu contingente populacional no Congresso.
Como a regra válida é esta, por lei, a busca por uma das 70 cadeiras federais paulista mostra indicadores próximos aos de muitos cursos em faculdades. Se tomarmos como base apenas os cursos oferecidos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, a proporção candidato/vaga é maior que 13 dos 24 cursos oferecidos pela universidade, por exemplo.
Se tomarmos como exemplo o curso de pedagogia, a constatação é a de que há mais pessoas querendo, proporcionalmente, ser deputado federal do que se dedicar à educação na área de curso superior da unidade. No vestibular de 2005, 392 candidatos disputaram 50 vagas no curso, uma proporção de 7,8 por vaga nesta área.
A relação entre o número de candidatos e o total de vagas é ainda maior quando se fala na disputa para a Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp). Para deputado estadual são 18,4 postulantes por cada cadeira no Legislativo paulista. O índice é mais que os cursos de engenharia civil e elétrica da Unesp de Bauru, que tiveram, respectivamente, 11,3 e 15,1 candidatos/vaga no vestibular de 2005.
A situação dos candidatos se torna ainda mais complicada depois da aprovação da lei 11.300, chamada de minirreforma eleitoral, que impôs uma série de restrições aos candidatos durante a campanha. Sem a visibilidade de faixas, cartazes e outdoors, os concorrentes precisam fazer a lição de casa, ou seja, retornar às bases eleitorais para fazer a prova final, prestando contas aos cidadão de cujos votos necessita para se eleger.
“Cursinho”
Para o professor de Geopolítica e Realidade Socioeconômica Brasileira da Universidade Sagrado Coração (USC), Sebastião Clementino da Silva, o Macalé, a situação dos candidatos pode realmente ser comparada ao vestibular, mas ele avalia que no caso dos políticos é mais difícil ainda. “O candidato depende muito de sua base, do compromisso assumido com ela e da comunicabilidade entre ele e o eleitor, que seria uma espécie de ‘cursinho’ pré-vestibular”, salientou.
De acordo com Macalé, a comparação entre eleição e vestibular tem vários aspectos. Segundo ele, não adianta ter uma base durante o ensino médio, se na hora de ingressar no ensino superior, não ocorrer conteúdo para tanto. “A eleição depende muito da coligação, da capacidade de trabalho e do reduto eleitoral. Se não for assim, é a mesma coisa de prestar o vestibular sem ter estudado”, disse.
Outra comparação que pode ser feita entre eleição e vestibular é a situação dos treineiros, alunos do ensino médio que realizam a prova apenas para “sentir” o clima. Segundo Macalé, há muitos candidatos que utilizam a eleição visando pleitos futuros. “Ele presta o vestibular, entre aspas, para não passar. Quer dizer, sai como candidato apenas para se manter na mídia e tentar se eleger em eleições posteriores”, ressaltou.