Imagine se existisse uma pílula da memória. Um comprimido seria suficiente para não esquecermos a data de aniversário das pessoas queridas ou todos os detalhes do cotidiano, do patrimônio físico e cultural... É animador, e é bastante fundamental que se diga isso porque deduzimos o quanto é importante a preservação da memória, embora os cidadãos brasileiros, em sua maioria, não entendam isso como um todo. Portanto, é necessário planejar as ações que conduzam à produção e distribuição de conteúdos que sirvam aos interesses das identidades culturais do país, e entendendo por identidade cultural a soma de significados que estruturem a vida de um indivíduo ou de um povo. É importante privilegiar as formas identitárias definidas pelo culto da memória e das origens. Quando falta um interlocutor, o que prevalece é o discurso da imposição.
Demolir a São Sebastião - Grande lição de apreço aos jovens que cada vez mais precisam de identidade, em relação à cultura e ao patrimônio bauruense! Grande demonstração de falta de cuidado com a consciência histórica e o legado que o esforço coletivo anônimo construiu no silêncio da limitação de sua existência! Não se quer discutir aqui a pragmática do presente, uma vez que o hoje é fluído. E a pragmática é uma praga traiçoeira que vem jogando gerações à margem da sociedade em benefício de pequenos grupos que podem colocar as mãos na massa para construir e desconstruir conforme argumentos imediatistas que têm gerado tanta violência.
Existe no senso comum, que deve ser revalorizado segundo muitos pensadores e filósofos honestos, frases de efeito que revelam mais a alma que o triste legado de uma geração; “Quem ama cuida!”, “Quem ama não mata!" Nós ousamos dizer : Quem ama preserva! Os homens do bem pensar têm alertado que se a água, a terra, o ar, enfim, se a natureza não for cuidada, a existência humana sofrerá, cada vez mais, grandes infortúnios. Entretanto, a preservação da natureza depende da preservação do culturalmente construído, isto é, dos bens simbólicos que estão mais próximos das pessoas. E assim têm feito muitos países considerados mais conscientes, onde a tradição, o patrimônio cultural são bens simbólicos que sustentam as relações humanas...O desrespeito à natureza tem mostrado sua força contrária através de uma violência incontrolável. O mesmo acontece com o desrespeito aos valores culturais e as identidades. A agressividade, a violência, a degradação e o desleixo com o espaço urbano e público são alguns dos graves fatores que geram a ira e o desconforto social. A construção da harmonia social não depende somente da distribuição de renda mais justa e equânime, aliás, esta proposição resulta de uma construção cultural generosa que já tem em si esse dado consolidado. A fome, a verdadeira fome, aquela que se constitui no deserto interior causado pelo desenraizamento das origens, tem como conseqüência à “debilidade social”, a ausência de sociabilidade, a carência de laços afetivos, o desrespeito às decisões coletivas e identitárias. A demolição de valores provoca a fragmentação, a pulverização dos conceitos e das possibilidades de aperfeiçoamento das categorias. A paz é o produto da construção do respeito ao já construído, mesmo quando ele ainda nada signifique aos olhos daqueles que chegaram depois. A insensibilidade brutal é a arma mais devastadora que o espírito colonizador tem usado para ocupar espaços que não lhes pertencem em arrasar culturas que não compreendem.
A demolição da Igreja São Sebastião demonstra o desrespeito de uma instituição e de grupos decisórios para com a comunidade bauruense. E mais, denota a não preocupação em refletir sobre a necessidade de ações que permitam a construção de valores e participação cidadã nos processos de transformações do cotidiano. A prática de transformações do espaço, dos valores, tem acontecido sucessivamente nessa comunidade religiosa, provocando danos irreparáveis nos agentes dessa história. Estamos usando desse espaço para registrar o fato, pois entendemos importante a informação aos bauruenses e aos moradores que freqüentam a Igreja como sua comunidade religiosa. E a mídia é um registro de acontecimentos, mas é também um centro de memória sobre pessoas, costumes, cultura.
As autoras, Glória Maria Palma é professora da Universidade do Sagrado Coração - USC - e Terezinha de Jesus Boteon é professora da Unesp