10 de julho de 2026
Internacional

Bush anuncia pacote com medidas, mas sem um cessar-fogo na região

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Washington - Sob pressão cada vez maior para que faça um pedido de cessar-fogo imediato, principalmente de países árabes aliados e da União Européia, o presidente George W. Bush anunciou ontem um pacote de medidas para o conflito entre Israel e o Hizbollah.

Em entrevista conjunta na Casa Branca, no entanto, tanto ele quanto o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, continuaram defendendo uma “solução duradoura”, eufemismo diplomático para chancelar as ações de Israel.

O líder republicano e seu principal aliado em questões de política externa anunciaram um “plano” que inclui a volta hoje ao Oriente Médio da secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, e uma promessa do envio de uma “força internacional de estabilização” no âmbito da ONU que ajude em questões humanitárias e permita que o exército libanês retome o controle do sul do país, atualmente em poder do grupo extremista e sob ataque do Exército israelense.

Tanto Blair quanto Bush voltaram a culpar Síria, Irã, Hizbollah, Hamas e mesmo insurgentes do Iraque pela crise, e o norte-americano afirmou que quer fazer do conflito uma “oportunidade para uma mudança mais ampla” no Oriente Médio. “Pelo bem de uma estabilidade duradoura, nós temos de lidar com essa questão agora”, disse Bush.

Nenhum dos dois pediu via cessar-fogo o fim imediato do conflito, que já dura 17 dias, deslocou 750 mil pessoas e matou mais de 450, dos quais pelo menos 400 libaneses.

Nas últimas horas, aliados importantes dos EUA na região, como a Arábia Saudita e a Jordânia, que num primeiro momento condenaram as ações do grupo xiita radical, vêm cedendo a pressões internas crescentes e passaram a condenar o que alguns analistas chamam de reação exagerada de Israel a um custo humanitário cada vez mais intolerável.

Blair disse ontem apenas que lamentava “profundamente pelo povo no Líbano e em Israel que são as vítimas inocentes”. “Nós podemos realmente trazer um fim a essa crise”, ofereceu, para afirmar em seguida que, a não ser que os líderes libaneses sejam fortalecidos, “nada funcionará por muito tempo”.

A tibieza das declarações de Blair e sua total harmonia com a Casa Branca contradisseram o que haviam adiantado seus assessores antes do encontro, que ele pressionaria pela “urgência” de um cessar-fogo.

Reforçaram ainda as críticas que o primeiro-ministro sofre no Reino Unido. Ontem, o jornal britânico “Independent” havia publicado texto cujo título perguntava: “Poodle ou cão-guia?” - a crítica mais habitual feita ao trabalhista é a de que agiria como um mascote dos EUA.

Políticos europeus temem que o auge das hostilidades entre Israel e Hizbollah ainda está por vir e que provavelmente nas próximas duas semanas a opção diplomática ainda será a principal arma de retórica tanto dos EUA quanto do Reino Unido.

Mesmo o detalhamento da tal “força internacional”, que já fazia parte do discurso da primeira viagem de Condoleezza Rice, não avançou. Bush disse que na semana que vem o Conselho de Segurança da ONU se reunirá, e ambos os países pedirão que seja determinado ali um prazo claro para o fim das hostilidades “urgentemente” e instalada uma força multinacional.

A reunião foi adiantada para segunda-feira. Indagado se Rice aproveitaria a nova viagem para falar com o governo da Síria, com quem a Casa Branca não se comunica desde 2005, Bush não quis responder.

Em outro momento, disse que sua mensagem para aquele país era: “Torne-se um membro ativo para a paz na vizinhança”. O objetivo do conjunto de países e grupos extremistas apontados pelos dois líderes como os verdadeiros responsáveis pelos conflitos na região seria desestabilizar a incipiente democracia.

Ontem ainda, um porta-voz do Departamento de Estado classificou de “ultrajantes” as declarações do ministro da Justiça de Israel de que o governo norte-americano teria dado seu aval para o avanço da campanha militar israelense.

O aval, segundo o ministro, teria vindo implicitamente quando Rice declarou, na quarta-feira, que esperava por um cessar-fogo “sustentável”, em vez de um “imediato”. Embora isolado, chamou a atenção o tom duro usado pelo porta-voz do departamento.

Na Malásia, Rice voltou a recitar a cartilha dos últimos dias, confirmando que chega a Jerusalém amanhã, mas insistindo que não busca uma solução imediata. Ao final da reunião de Roma, relembrou, "todos concordamos que não podemos voltar às circunstâncias que primeiro criaram essa situação."