O que a Orquestra Sinfônica de Bauru e a Banda Municipal têm em comum com a igreja evangélica? À primeira vista, nada. Mas é só direcionar o olhar para a composição das duas primeiras para notar que a maioria dos músicos é evangélica. De acordo com o regente da orquestra, Paulo Marcos Gomes Pereira, dos 120 jovens que compõem a orquestra e a banda, aproximadamente 60% são assíduos freqüentadores dos cultos.
Mais do que uma simples coincidência, seguir a doutrina evangélica foi fundamental para que esses jovens descobrissem ou desenvolvessem a aptidão musical. Segundo o regente, que também é evangélico, a Congregação Cristã no Brasil e a Assembléia de Deus são as que mais formam instrumentistas. A análise também é compartilhada por diversos maestros de São Paulo, como publicou uma recente matéria do jornal “A Folha de São Paulo”.
“Eu tenho 33 anos e toco violino desde os 11 anos incentivado pela Assembléia de Deus. A igreja é um grande celeiro para a formação musical, porque, lá, as crianças têm oportunidade de fazer aulas de canto e instrumentos gratuitamente. Ela acaba cumprindo a função do Estado”, salienta Pereira.
Vivian Palomo, de 14 anos, também concorda com o regente. Há dois anos como violinista da Orquestra Municipal, a jovem teve o primeiro contato com a música nos bancos da Congregação Cristã. “As primeiras notas eu aprendi na igreja. Mas no culto é diferente da orquestra, lá a música é para louvar a Deus”, explica.
Há quatro anos tocando flauta na Banda Municipal, Érika Santos Ribeiro, de 17 anos, descobriu sua vocação para o instrumento na Assembléia de Deus. “Com 11 anos comecei a fazer aulas de música na igreja. Fiquei dois anos estudando até encontrar o instrumento que melhor se encaixasse comigo, que foi a flauta. Fui para a banda porque a igreja me apoiou, eles acharam que lá eu poderia aprender mais e realmente estou aprendendo”, diz.
____________________
CD Gospel
O músico Fernando Câmara, de Botucatu, se interessou pela música nos cultos da Igreja Presbiteriana Independente. Com 11 anos, ele entrou para o coral gospel e teve as primeiras noções musicais. Na década de 80, foi integrante de uma banda gospel e, depois, para sobreviver, tornou-se músico da noite, enfrentando todo o tabu da igreja.
Agora, depois de 20 anos, o músico se prepara para voltar às origens e abandonar a noite. “Pelo meu lado espiritual, eu desejo parar de tocar em barzinhos. Eu nunca me envolvi com drogas nem bebidas, mas o que me completa é a música evangélica. Com ela, sinto o poder do Espírito Santo agindo sobre mim”, relata.
Fernando está na fase de produção do seu primeiro CD gospel. O título ainda não foi definido, mas o músico já selecionou para a gravação 16 composições, sendo dez próprias e seis de parceiros. “O custo para gravar um CD é muito alto, mas estamos atrás de patrocínios e, se tudo der certo, vou lançar o álbum e voltar a cantar nas igrejas”, anseia. Mais sobre o trabalho do músico pode ser encontrado no site www.fernandocamara.com.br
____________________
Louvar a Deus
Para os evangélicos, a música é uma forma de adoração a Deus, de louvor. “Nos ‘Salmos Bíblicos’ está escrito que devemos louvar ao Senhor. O louvor é uma forma espiritual, por isso é diferente de cantar. Quando louvamos, os semblantes das pessoas que nos ouvem mudam, porque atingimos a alma”, diz a responsável pelo grupo de louvor União da Mocidade da Assembléia de Deus de Bauru (UMADB), Andréa Alfenas Belchior Lira.
Ela e o marido, o pastor Elias Lira, assim como outros evangélicos, acreditam que a música é um instrumento de salvação e, por isso, deve ser ensinada desde muito cedo às crianças. “A Bíblia fala que os pais têm de ensinar os filhos. Se todos os encaminhassem para a cultura, não seriam necessárias as cadeias. O que falta é Deus no coração do povo e uma forma de se aproximar dele é pela música”, acredita o pastor Elias Lira, que tem dois filhos que freqüentam os cultos e têm aulas de iniciação musical.
A música é tão forte na igreja evangélica que a Assembléia de Deus tem uma orquestra com aproximadamente 20 membros que executam hinos acompanhados por violinos, clarinete, saxofones, trompetes, trombone, bateria, contrabaixo, teclado e guitarra. “A orquestra existe há quatro anos e conta com músicos de 10 a 40 anos. Todos os instrumentos são cedidos pela igreja e ensinados gratuitamente aos interessados”, explica o jovem regente Adrônico Medrade Carvalho, de 20 anos.
A Congregação Cristã foi procurada pela reportagem, mas, por conta da política de não-divulgação dos trabalhos realizados pela igreja, eles preferiram não se pronunciar.