10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Uma crise da razão

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, perguntaram a Albert Schweitzer como se deve educar as crianças. O pensador, depois de refletir um pouco, respondeu: “Primeiro, através de exemplos. Segundo, através de exemplos e, terceiro, através de exemplos!”

Nós nascemos em um determinado contexto cultural e socioeconômico. Somos educados com determinados valores e acompanhamos as transformações da sociedade e do mundo, que acabam influenciando diretamente ou indiretamente em nossa vida.

Vivemos em uma civilização. O problema é que, muitas vezes, não percebemos que civilização é simplesmente uma construção humana. Vivemos assim, porque, no transcorrer da história, seres humanos foram moldando nossa condição social.

Para os neofrankfurtianos, o problema não é a crise do capital, mas a crise da razão. Esta crise da razão possui sua origem na falta de exercício do pensar sobre os rumos para os quais deixamos a vida fluir. Segundo Antony Giddens, a “reflexividade” é o movimento de olhar o fundamento da ação para agir de novo.

Justamente a “reflexividade” é o saudável e diário exercício que nos falta. Reflexividade é o ato de pensar e raciocinar sobre aquilo que somos, fazemos. A atividade profissional que desenvolvemos, os políticos para os quais votamos, o papel do Estado, enfim, a história que estamos construindo. Mas, não somente pensar, a reflexividade se completa com um novo agir que surge da reflexão.

A conseqüência individual da crise da razão e, portanto, da falta de reflexividade, é o surgimento de uma sociedade melancólica. O melancólico é aquele que perdeu algo que lhe dá um vazio terrível, ele perdeu o seu próprio eu.

Mas, como é muito mais exigente admitir este vazio e ir em busca de preenchê-lo, ou seja, ir em busca de algo significativo que dê sentido a sua vida individual e social, o melancólico escolhe o caminho mais cômodo. Ele se enche de atividades não somente para sobreviver, mas também para não refletir sobre sua vida.

Sair da crise da razão significa pensar tanto na vida individual como nas estruturas sociais e se conscientizar de algo muito simples: de que a vida só tem sentido se for vivida por todos com prazer. Ao contrário de Schopenhauer, que dizia que nossa casa era a tristeza, Nietzsche pregava que nossa existência só se desenvolve no prazer da alegria. Nietzsche pregava o conhecimento alegre, o que ele chamava de “Gaia Ciência”.

A função do saber, do conhecimento, da escolaridade, não era para o filósofo a possibilidade de simplesmente se encaixar no mercado de trabalho e ser uma peça a mais na máquina que nos utiliza, mas a construção de uma vida verdadeiramente feliz. Por isso, o mito ideal pregado por Nietzsche é Dionísio, o deus da alegria, da dança, do vinho, do prazer.

Dionísio simboliza tudo aquilo que nos faz verdadeiramente rir, nos liberta da rotina e da tristeza e resgata um sentido de vida. Nietzsche não está falando daquele humor que possuímos hoje, um humor que ameniza a nossa desgraça social e nos faz sobreviver em uma sociedade com pouco senso de justiça, individualismo, pobreza, violência e corrupção. É uma alegria que surge através, durante e depois do repúdio, da indignação frente à ineficácia de nossas instituições em organizarem uma sociedade do bem-estar.

Para se alcançar esta alegria do conhecimento, é fundamental uma maturidade individual e social. Vivemos alegrias momentâneas para sobrevivermos em uma triste sociedade. Isso não é maturidade. Maturidade é a capacidade de me impor uma frustração, a curto prazo, para se ter uma compensação a médio e a longo prazos.

Nós nos esforçamos, passamos por situações desagradáveis e sofrimentos para alcançar algo verdadeiramente e duradouramente bom. Infelizmente, fazemos o inverso, buscamos momentos passageiros de alegria, rápidas satisfações prazerosas, para continuarmos a viver em uma sociedade infeliz. A maturidade tanto individual quanto social é alcançada quando aprendemos a fazer o contrário: buscamos o confronto com nossos problemas mais sérios, para mais tarde podermos ter uma satisfação duradoura.

Aqui está o único sentido do sofrimento. A cruz só vale a pena se ela for passageira e se nos levar à ressurreição. Para isso, é necessário uma ativa paciência, sem nunca perder o objetivo de vista. Atitude que é impossível para o compulsivo, para aquele que é incapaz de se impor frustrações, que nunca quer sofrer e deseja somente o prazer e o prazer agora.

Uma sociedade que não discute seus problemas acaba gerando melancólicos, que nascem, crescem e morrem, e egoístas compulsivos que procuram se salvar como podem. O que temos em comum é uma realidade grotesca, sobre a qual fazemos piadas, um humor que nos faz rir de nossa contínua desgraça, mas não nos liberta verdadeiramente. Para sairmos da crise da razão, precisamos levar mais a sério a nossa alegria.