10 de julho de 2026
Bairros

Sebes esforça-se para atender ‘novos velhos’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Por muitos anos, velho era sinônimo de pessoa de idade avançada, ranzinza, que permanecia dias e noites em casa dormindo ou vendo TV. Mas mudanças vieram com o passar do tempo (que, ironicamente, sempre foi considerado o maior inimigo dos idosos).

Os ranzinzas deram lugar a pessoas dispostas e alegres. A reclusão do lar vem sendo trocada pela agitação do convívio social. Mesmo a palavra velho está em desuso e já foi substituída por termos politicamente corretos como “terceira” ou “melhor” idade.

Novos tempos, novos idosos. As transformações ainda são tímidas, mas a rede básica de proteção da Secretaria Municipal de Bem-Estar Social (Sebes) tenta dar conta da demanda dos “novos velhos”. Os serviços oferecidos ainda são poucos e bastante localizados.

“Até agora foi priorizado o atendimento a crianças e jovens, pois a demanda por assistência é maior nessas faixas etárias”, afirma Egli Muniz, secretária responsável pela Sebes. Segundo ela, a expectativa é de que, já no ano que vem, o órgão possa concentrar suas ações para pessoas acima dos 60 anos.

A secretaria administra, atualmente, três grupos de terceira idade. Um na Bela Vista, com 110 participantes, outro na Vila Independência, com 51 membros, além do terceiro no distrito de Tibiriçá, com 21 integrantes. Os grupos desenvolvem atividades como passeios, oficinas de artesanato e jogos.

“Nosso objetivo principal é trabalhar fatores como memorização, por exemplo, sempre em busca de uma melhor qualidade de vida para o idoso”, afirma Maria Cristina Marques Rossi, assistente social da Sebes.

Os grupos também recebem palestras sobre envelhecimento saudável. Ainda são realizados encontros com crianças participantes dos Centros de Convivência Infanto-Juvenis (os PETs). O objetivo das atividades é fazer a integração entre diferentes gerações.

“É uma tentativa de troca de conhecimentos. Por um lado, as crianças entram em contato com valores morais sólidos que muitas vezes acabam esquecidos, neste contexto de mundo globalizados em que vivemos. Por outro lado, os idosos têm a oportunidade de superar as barreiras em relação à cultura atual”, acredita Rossi.

Além dos três grupos, a Sebes possui um quarto, que funciona no Núcleo de Apoio Familiar (NAF) do Parque Jaraguá e é mantido em uma parceria com a Fundação Toledo (Fundato). Com atividades há cerca de um ano, o grupo prioriza ações de formação dos participantes, como cursos de artesanato, informática e alfabetização de adultos.

Para muitos participantes, a iniciativa representou salvação financeira. A aposentada Maria da Guia, de 57 anos, resolveu fazer um empréstimo com desconto em folha de pagamento. Quando se deu por conta, havia comprometido mais da metade do salário mínimo que recebe todo mês.

“Restavam apenas R$ 135,00 para eu sobreviver”, lamenta ela, que ainda paga parcelas mensais pelo empréstimo. Os cursos de tricô e crochê foram a alternativa encontrada pela aposentada para superar as dificuldades financeiras.

“Nesta semana já vendi três blusas e recebi R$ 80,00 por cada uma”, garante. No valor de cada peça vendida é descontado o valor do material oferecido pelo NAF. Todas as atividades do grupo são gratuitas.

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Perseverança

Estudar depois dos 60 anos pode ser algo impensável para a maioria das pessoas, mas não para Izabel de Oliveira Medina, viúva de 76 anos, que participa do programa Universidade Aberta à Terceira Idade da Universidade do Sagrado Coração (USC).

Ela freqüentou a escola durante seis anos apenas, quando criança. “Naquele tempo as famílias não permitiam que as moças saíssem de casa”, conta. O tempo passou e dos tempos de estudo restou o gosto pela leitura.

“Eu adorava ler os clássicos”, afirma. A ânsia de aprender era imensa e só pôde ser saciada em 1993, quando a USC passou a oferecer serviços aos idosos. Medina garante não ter encontrado dificuldades para se relacionar com os alunos mais jovens.

“Nos primeiros dias eles pareciam meio receosos, mas fiz amizades e no fim eles vinham até minha casa para estudar”. Os poucos anos de escolaridade foram compensados com força de vontade. “Estudava muito, pois não queria fazer feio”, brinca.

Medina já cursou disciplinas de português, literatura e espanhol. E por espantoso que possa parecer, aprendeu a falar francês, língua que desconhecia por completo antes de participar do programa. E engana-se aquele que pensa que Medina sofreu para aprender o novo idioma. “Que nada, foi o mais fácil”, garante.