08 de julho de 2026
Ser

Mestre inesquecível

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Por que alguns alunos gostam de língua portuguesa e detestam matemática? Ou ainda: quais motivos levam os estudantes a se dedicar mais em determinada disciplina e menos em outras? Estas e outras questões são analisadas no livro recém-lançado “Afetividade e Práticas Pedagógicas” (Editora Casa do Psicólogo), organizado por Sérgio Antônio da Silva Leite, doutor em psicologia e docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A obra é fruto de uma pesquisa sobre como a dimensão afetiva influencia o processo de aprendizagem e tem como base estudos desenvolvidos por mestrandos, doutorandos e estudantes de iniciação científica, todos orientados por Sérgio, com alunos da pré-escola ao ensino médio.

De acordo com Sérgio, que possui outros seis livros publicados na área de psicologia e educação em três décadas de carreira, independente da proposta pedagógica, a atuação do professor, como mediador, pode determinar a qualidade da relação que o aluno mantém com o objeto de estudo.

Em entrevista concedida por telefone ao Jornal da Cidade, ele aponta, entre outros assuntos, porque os fatores emocionais influenciam os aspectos cognitivos no processo de aprendizagem. Confira os melhores trechos a seguir.

Jornal da Cidade – O livro aborda a questão da afetividade e as práticas pedagógicas. Como foi o processo de pesquisa sobre o tema?

Sérgio Antônio da Silva Leite - Sempre trabalhei com alfabetização, leitura escrita, letramento e, no final dos anos 90, comecei a estudar a questão de como as pessoas se constituem como leitores, analisando por que há pessoas que adoram e outras detestam ler. Orientei duas alunas que realizaram projetos sobre o tema e começamos a estudar o que aconteceu na história de vida de adultos que são leitores autônomos, para quem a leitura é como oxigênio. Começamos a perceber que estes leitores tiveram, desde a infância, uma história de mediação com a leitura muito afetuosa. São leitores que tiveram desde a infância pessoas que faziam ponte com leitura e que afetivamente eram referência positiva para eles, como a avó ou os pais que costumavam ler textos para eles, passando ainda pela escola. Na realidade isto não é novidade. O que é novo é que a partir daí passamos a sistematizar este trabalho e a levantar outras questões e hipóteses que nos levaram a observar se as práticas pedagógicas, de modo geral, carregam este poder afetivo ou não. A idéia foi estudar a relação do sujeito com vários objetos de conhecimento, no caso a escola.

JC – Quais foram as principais conclusões do estudo?

Sérgio – A relação do aluno com a leitura, história ou gramática, por exemplo, não ocorre somente em nível cognitivo. Ela também tem dimensão afetiva e é marcada pela qualidade da mediação e de quem faz esta mediação.

JC – Este é o papel do professor?

Sérgio – Na escola, sem dúvida, o professor é o mais importante. Mas na verdade essa relação que estamos analisando não ocorre só na escola, é uma relação de vida de forma geral, em casa, na família, com os pais. Na escola, há também os colegas e o material pedagógico. Reforço que esta relação nunca se dá somente na dimensão cognitiva. Ela é também afetiva.

JC – E o que é afetividade?

Sérgio – Esta é uma das questões que talvez nos ajude a entender porque o tema afetividade demorou para ser discutido. Afetividade é um tema altamente subjetivo. Trabalho hoje com dois autores cujo referencial teórico ocorre em uma abordagem histórico-cultural, que são Wallon e Vygotsky. Por afetividade nos referimos à forma como as experiências que vivemos repercutem internamente em nós. Toda vivência tem repercussões internas e subjetivas. E estas repercussões são também de natureza afetiva, que vem da noção básica de emoção. Segundo Wallon e Vygotsky, o homem desenvolveu uma máquina biológica que o torna capaz de sentir emoções, um processo mais fisiológico. Por exemplo, no recém-nascido ou na criança pequena, as respostas emocionais são mais puras. À medida que a criança vai se desenvolvendo, começa a burilar estas formas de emoção. A própria dimensão racional vai interferindo neste processo. Com a aquisição da fala, as crianças e jovens começam a elaborar idéias sobre a própria emoção. E é assim que vai surgindo a afetividade, que é um processo muito mais elaborado e subjetivo. Enquanto a emoção é puramente biológica, a afetividade envolve todo o processo de repercussão na dimensão subjetiva, que já é muito marcada pela cultura.

JC – A relação afetiva entre professor-aluno pode interferir no processo de aprendizagem? De que maneira?

Sérgio – Pode. Depois que nós começamos a estudar a questão da condição do leitor, simultaneamente abrimos mais duas frentes de pesquisa. Passamos a estudar as relações interpessoais em sala de aula, principalmente na pré-escola, com crianças menores, que aparecem por meio de posturas corporais e conteúdos de falas. Foi possível montar um elenco de categorias e subcategorias de posturas e falas que nos permitiram inferir com segurança que existe neste processo uma dimensão afetiva muito forte.

JC – Dê um exemplo.

Sérgio - As crianças, por exemplo, são muito sensíveis às posturas receptivas. Elas percebem o professor pelo corpo e pelo rosto, percebem quando o professor está ou não receptivo. É uma faca de dois gumes.

JC – E esta percepção pode interferir no aprendizado?

Sérgio – Sim. Nos conteúdos verbais, o que marca muito a criança não é o fato do professor ser meloso, ficar dizendo que ela é bonitinha. Não é dessa forma. As crianças dão muito valor para as falas de ajuda, de incentivo, que dão dicas no trabalho escolar.

JC - Isto quer dizer que o professor afetuoso não é o professor bonzinho?

Sérgio – Exatamente. E aí é que nós iniciamos um terceiro momento na pesquisa. Começamos a trabalhar não só com relações interpessoais, mas também a pesquisar praticamente todas as decisões pedagógicas que o professor toma em sala de aula, tentando identificar as dimensões afetivas que elas trazem. Observamos que a maneira como o professor organiza as condições de ensino vai, em parte, determinar o tipo de relação afetiva que se estabelece entre o aluno e o conteúdo.

JC – Nesta relação professor-aluno, por que existem docentes que se tornam inesquecíveis?

Sérgio – Trabalhamos muito com alunos de cursinho tentando identificar os jovens que assumem que tiveram na vida um professor inesquecível. Quase metade deles assumem que tiveram um professor que deixou marcas afetivas muito importantes, mas também professor aversivo.

JC – E qual é o perfil do mestre inesquecível?

Sérgio - Isto é interessante. O professor inesquecível não é meloso, aquele que põe no “colo”. Ao contrário, geralmente ele é um professor às vezes até tradicional, mas que tem um profundo respeito pelos alunos. A partir das práticas pedagógicas, os alunos disseram que o professor estava sempre preocupado com a condição do aluno. Por exemplo, um dado que me surpreendeu muito é que a aula expositiva, que na universidade sempre criticamos, foi avaliada pelos alunos como uma atividade pedagógica extremamente interessante. Isto porque quando descrevem a aula deste docente, destacaram que a aula era planejada, organizada, com bons conteúdos, onde o professor levava recursos visuais, materiais e estimulava o diálogo. Outro aspecto que marcou muito na pesquisa foi a questão da avaliação.

JC – Por quê?

Sérgio - A avaliação é a atividade pedagógica mais sensível à relação afetiva, porque nossa história de mediação, a forma de avaliação tradicional na escola, é agressiva. É uma condição que o aluno entra sem saída. Se ele for mal, está comprometido. A lógica da avaliação tradicional é esta: o professor ensina, depois avalia e se o aluno não for bem, se dá mal. E isto tem dimensões inacreditáveis.

JC - O senhor quer dizer que quando o aluno diz não gostar de determinada matéria, isto pode estar ligado à própria relação professor/aluno?

Sérgio – Pode. Por exemplo, o que “mata” a relação do aluno com o objeto de ensino é quando ele tem um professor que faz da avaliação um armadilha ou usa o método para punir ou ainda desrespeita o aluno que vai mal. Às vezes, sem querer, o docente faz alguma brincadeira de mau gosto com o aluno que vai mal. Isto tem um efeito espantoso porque para alguns é uma ruptura. Nos casos que analisamos de alunos que detestam alguma disciplina há uma história geralmente de uma vivência e avaliação ruins.

JC – Os fatores emocionais podem interferir no aspecto cognitivo? De que forma?

Sérgio – Sim. Do ponto de vista teórico, é importante perceber que o homem vem de uma concepção filosófica secular na qual ele sempre foi entendido como um ser dividido. No fundo, aquela velha divisão entre corpo e alma acabou gerando uma série de outras divisões, entre as quais a divisão entre razão e emoção, a qual chamamos de concepção dualista, dividindo o homem entre razão e emoção. E a razão sempre foi vista como o lado mais importante, cabendo à emoção o lado responsável pelo que o homem teria de animalesco. Esta divisão impediu, pelo menos até o século passado, o fato do homem se ver como ser único. Este movimento em favor de uma concepção munista, onde o homem pode ser visto como um todo, começa a tomar corpo no final do século 19 e 20.

JC – E qual é o efeito desta concepção dualista no processo de ensino?

Sérgio – A escola tradicionalmente recebeu toda a carga da concepção dualista, onde o mais importante era trabalhar com o aspecto cognitivo. Então era difícil encontrar um professor de matemática que tivesse assumido como objetivo levar o aluno a gostar da matemática. Agora é que se está observando algumas mudanças. Em Campinas, por exemplo, há escolas preocupadas com a formação do hábito de leitura. E os hábitos já implicam uma questão afetiva. Acho que o problema da dimensão afetiva, na nossa concepção, está presente em toda condição de aprendizagem. Não estou querendo sair de um extremo para o outro. Estou apenas defendendo a idéia que o homem não é um ser que ora pensa, ora sente. O homem é um ser que pensa e sente ao mesmo tempo. Não há pensamento sem emoção ou emoção sem pensamento. Não dá para dividir.

JC – Como esta relação professor/aluno pode ser colocada em prática?

Sérgio – Eu não estou defendendo nenhuma pedagogia do amor. Independente da proposta pedagógica, estamos identificando que em qualquer atividade pedagógica, independente da parte teórica, a dimensão afetiva está presente e precisamos estar atentos a isto. O importante é criar condições de ensino que aumentem a probabilidade do aluno ter uma relação afetiva com seu objeto de estudo.