08 de julho de 2026
Geral

Após longo protesto, sem-terra conseguem 7,1 mil cestas básicas

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 3 min

Trabalhadores do Movimento Sem-Terra (MST) conseguiram ontem, em Bauru, a liberação de 7.100 cestas básicas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e o restabelecimento da distribuição dos alimentos a partir do mês de setembro. Há oito meses, as 10 mil famílias que fazem parte do movimento no Estado de São Paulo não recebem o benefício do governo.

Cerca de 300 trabalhadores, vindos de Getulina (a 160 quilômetros de Bauru), acamparam ontem desde as 7h30, em frente à unidade da Conab, na Vila Industrial, para reivindicar as cestas. As negociações levaram o dia inteiro e só terminaram por volta das 16h. Os sem-terra, antes de serem atendidos pela direção da companhia, ameaçaram invadir o local. A demora nas negociações ocorreu porque o leite e a farinha que compõem as cestas não estavam dentro dos padrões da Conab, embora fossem próprios para o consumo. O governo autorizou a distribuição dos produtos, mesmo fora dos padrões da companhia, e o MST aceitou recebê-los.

“As famílias do movimento (Sem-Terra) estão há oito meses sem receber um caroço de arroz ou de feijão. Já que o governo não assentou a gente, pelo menos que nos forneça comida. Muitas crianças já foram internadas por desnutrição. A cesta é uma medida paliativa, mas necessária no momento”, ressalta Lourival Castro de Paula, um dos líderes do movimento no Estado de São Paulo.

A gerente da Conab em Bauru, Filomena Piragino Della Rovere, disse que os alimentos poderão ser retirados pelos trabalhadores ainda nesta semana. “O Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) já foi notificado a liberar os acampamentos para virem receber a cesta. Os trabalhadores poderão levar os alimentos nesta semana.”

Interrompido

Segundo ela, o fornecimento das cestas básicas foi interrompido há oito meses porque o orçamento para a compra dos alimentos só foi liberado pelo Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) no mês de junho. “Além disso, a aquisição do produto tem uma tramitação de leilões. Essa demora na liberação de orçamento para aquisição da cesta foi o que ocasionou a interrupção do abastecimento”, acrescenta.

Lourival ressaltou que desde o mês de janeiro os acampamentos sobreviveram de doações feitas por sindicatos, igrejas, assentamentos e entidades assistenciais. Entretanto, segundo ele, os alimentos nem sempre eram suficientes para atender a toda a demanda.

As manifestações do MST na região não devem parar por aí, conforme garantiu Lourival. De acordo com ele, os protestos pela reforma agrária – agora com o problema da falta de cestas básicas resolvido – vão recomeçar.

“O governo prometeu que assentaria 400 mil famílias nesses quatro anos de mandato. Não foi o que aconteceu. Até agora, no Brasil todo, mais de 200 mil ainda se encontram em acampamentos”, destaca.

O grupo de trabalhadores sem-terra que veio a Bauru ontem está desde o dia 25 de julho acampado na Fazenda Volta Grande, em Getulina. Os barracos, segundo Lourival, tomam toda a extensão de terra, que soma 700 hectares. Ao todo, são 700 famílias acampadas. A intenção, de acordo com Lourival, é acomodar mais 70 famílias na fazenda.

“O local é improdutivo e o governo está desapropriando. Nesta terça-feira vamos participar de uma audiência pública em Getulina para cobrar do governo a reforma agrária”, completa Lourival.

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Dificuldade

Edvânia Xavier de Souza, 27 anos, faz parte do Movimento Sem-Terra (MST) há mais de um ano. Com quatro filhos, de 10, 6, 4 e 1 ano, diz que as dificuldades para sobreviver nos acampamentos é grande. “Os barracos são pequenos, além de serem muito frios à noite e muito quentes durante o dia”, destaca. A trabalhadora, que ontem esteve em Bauru durante a manifestação em frente à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), conta que desde o começo do ano, quando o fornecimento de cestas básicas foi interrompido pelo governo, ela e seus quatro filhos sobreviveram de mandioca, batata-doce e feijão que plantou na fazenda onde estavam acampados.

“Acredito que um dia o governo vai olhar para a gente. Temos que continuar lutando, porque se não formos atendidos agora, nossos filhos podem ser no futuro. Só precisamos ter esperança”, comenta Souza.